Sonho, Logo Existo

Crítica


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Sinopse

Em Sonho, Logo Existo, dois homens de gerações diferentes formam um vínculo improvável enquanto protegem um urso de circo fugitivo no interior da França. No caminho, acabam descobrindo paixões compartilhadas pela natureza e pela sabedoria ao longo do caminho. Comédia.

Crítica

Pierre Richard permanece um daqueles astros cuja presença define uma era. Símbolo de comédia física e burlesca que praticamente desapareceu do cinema contemporâneo, ele atravessou os anos 1970 e 1980 como o “trapalhão desajeitado” definitivo – figura que moldou sua persona cinematográfica e conquistou plateias ao redor do mundo. Hoje, aos 91 anos, cada nova aparição sua carrega o peso afetivo de um último ato, algo raro, precioso. Em Sonho, Logo Existo, Richard suaviza traços clássicos de sua imagem – tão presentes, por exemplo, em Loiro Alto do Sapato Preto (1972) – e oferece algo distinto: comédia terna, quase contemplativa, que funciona como carta de amor à arte que o acolheu por décadas.

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Com roteiro e direção assinados por ele mesmo – retorno à função após quase 30 anos afastado, desde Droit dans le mur (1997) – Richard interpreta Grégoire, idoso recluso que vive isolado em cabana no interior da França. Sua rotina pacata se transforma quando cruza caminho com Michel (Timi-Joy Marbot), jovem autista apaixonado por poesia e pela natureza. A dupla, inicialmente tão improvável, se vê envolvida em aventura inesperada após o surgimento de um urso fugitivo de um circo itinerante. A partir daí, o convívio entre o eremita, o rapaz sensível e o animal estabelece laço construído na delicadeza.

O retrato que Richard compõe é simples, mas carregado de humanidade. Mesmo sem ambicionar grandes reviravoltas, o filme encontra brilho em sua postura meiga, navegando entre comédia leve e poesia discreta. Há espaço para temas como amizade intergeracional, reencontro com o mundo e quebra do isolamento emocional – tudo conduzido por tom mais íntimo que escancara o afastamento do diretor em relação ao riso mais acessível que marcou sua filmografia anterior. Se no século passado suas histórias apostavam em gags físicas e mal-entendidos acelerados, aqui surgem camadas simbólicas: reconciliação com a própria história, troca entre gerações, potência da empatia. É um Richard que dialoga com seu passado, mas também parece aceitar o presente com outra serenidade.

A dinâmica entre o jovem e o veterano dá ao longa uma leveza peculiar, frequentemente embalada por sequências que abraçam o nonsense, o improviso e o encanto do inesperado. O Richard cineasta se permite ousar num momento em que a comédia parece andar pisando em ovos diante do medo de desagradar. E, aos 91 anos, por que ele deveria temer alguma coisa? Assim, o enredo brinca com situações improváveis – atuar ao lado de um urso, construir humor a partir de rituais fúnebres, explorar a espontaneidade do autismo sem reduções estereotipadas, exagerar aqui e ali – sempre mantendo cuidado afetuoso. É como se Richard dissesse ao público: a imaginação ainda me pertence.

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Sonho, Logo Existo pode frustrar quem espera uma comédia de moldes tradicionais ou quem aguarda o retorno estrito daquele Pierre Richard dos anos dourados. Aqui, o onírico e o dramático falam mais alto do que qualquer piada planejada. Mas, dentro dessa mistura, existe algo honestamente tocante: a sensação de que estamos diante de um artista oferecendo seu cinema como último gesto de ternura. Nada aqui é grandioso – e tampouco pretende ser – mas sim um experimento singelo, guiado por encanto modesto. 

Filme visto durante o Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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