Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Silvio Santos Vem Aí!, uma publicitária responsável pela campanha do icônico apresentador à presidência da república, em 1989, recebe a missão de descobrir quem é aquele homem além da imagem que tanto aparece na televisão. Ao longo do trabalho, ela conhece sua verdadeira personalidade, enfrentando desafios e mudando sua perspectiva sobre alguns padrões. Biografia.
Crítica
Nem sempre a melhor estratégia é encarar o desafio de frente. Por vezes, é sábio dar a volta, talvez até mesmo recuar por instantes e refletir sobre o possível ganho que outros caminhos possam oferecer. É mais ou menos o que Paulo Cursino, roteirista, e Cris D’Amato, diretora, fazem em Silvio Santos Vem Aí!, a mais recente cinebiografia de um dos maiores ícones da televisão brasileira. Ao contrário do que ele fez em Mussum: O Filmis (2023), a muito bem-sucedida experiência anterior – os parâmetros usados foram o desempenho em festivais (grande vencedor de Gramado) e retorno nas bilheterias (mais de 200 mil espectadores) – que teve no gênero, a abordagem não se dá de modo frontal. Silvio Santos não é o protagonista do filme. É mais ou menos o caminho seguido por L.G. Bayão em Maníaco do Parque (2024), que apesar do título, tinha como condutora da trama uma jornalista encarregada de investigar a história do assassino. Ela fazia, portanto, às vezes do espectador, que ia lentamente se inteirando da jornada de figura tão controversa. Dessa vez, quem tem essa responsabilidade é uma publicitária que tem como missão descobrir a verdade por trás daquele homem que todos os domingos invadia as casas de milhares de brasileiros. Quem ele era, de fato, em sua intimidade, em família, no modo como conduzia seus negócios. A proposta não deixa de ser interessante. Na mesma forma que parece trair o público que chega a esse filme esperando encontrar algo, mas irá se deparar com algo diferente.
O homem que escreveu comédias como Os Farofeiros (2018) e De Pernas Pro Ar (2010) – e suas inevitáveis sequências – agora deixa momentaneamente o tom cômico de lado para buscar uma aproximação mais sóbria e reflexiva. O Silvio Santos vivido por Leandro Hassum não é composto apenas pelas histórias que o tornaram famoso, mais ou menos como foi a elaboração do personagem na minissérie O Rei da TV (2022-2024), mas também está longe de se mostrar recluso e quase beatificado como aquele vivido por Rodrigo Faro em Silvio (2024). A ideia foi buscar um caminho intermediário. Deixa-se também de lado a ambição de narrar sua trajetória por completo, desde a infância até os anos derradeiros – mais ou menos como o seriado buscou – e, assim como o longa anterior, também faz uso de um episódio específico de sua vida para, a partir dele, oferecer um desenho de quem, de fato, foi essa figura. Mas não um capítulo menor – no caso do longa de Marcelo Antunez, o foco estava no sequestro que o apresentador teria sofrido em sua própria casa – e sim um que teria gerado comoção nacional. Em 1989, quando o país finalmente teve uma eleição presidencial com voto direto, a primeira desde 1960, nada menos do que 22 candidatos se apresentaram para a disputa. Inacreditavelmente, outros 6 também se colocaram dispostos à corrida, mas acabaram tendo suas campanhas indeferidas. Entre estes estavam Jânio Quadros (ex-presidente da República) e, veja só, Silvio Santos!

Eis, portanto, quando começa Silvio Santos Vem Aí!. O empresário e jornalista anunciou essa intenção faltando apenas quinze dias para a votação do primeiro turno. O partido era nanico (PMB, Partido Municipalista Brasileiro, fundado em 1985 e extinto neste mesmo imbróglio) e não haveria como ter seu nome na cédula, apenas o número (ele entrou substituindo um candidato que decidira lhe ceder o espaço). Como formar na população o conceito que esse personagem tão midiático e conhecido por brincadeiras televisivas poderia também ser um político competente? Quem fica encarregada de descobrir como apresentá-lo ao eleitor é Marília (Manu Gavassi, comprometida com o papel), que trabalha na agência de publicidade responsável por levar a campanha adiante. A cada encontro com Silvio, uma nova faceta da personalidade dele lhe é revelada. Trata-se basicamente de um processo de investigação. Quem se destaca nesses momentos, no entanto, é Hassum. Se há algum tempo ele vem demonstrando interesse em ampliar seu alcance dramático, aqui encontra oportunidade singular para tanto. O Silvio Santos que oferece é tão misterioso quanto acessível, respondendo perguntas com outros questionamentos e nunca oferecendo algo definitivo a seu próprio respeito. É alguém que entende que dúvidas são terreno mais rico do que convicções apressadas. O ator compreende isso e assume o enigma enquanto forma de atuação. O sorriso está posto, e sua capacidade de transformação impressiona pela leveza como alterna de um tom para outro, do incisivo ao brincalhão, trocando máscaras como quem substitui um casaco por outro.
A candidatura de Silvio Santos não durou nem mesmo as duas semanas anunciadas. Antes disso, o TSE rejeitou a inscrição e os planos dele e do partido foram colocados de lado. Mas foi o suficiente para que nunca mais se aventurasse em outra aventura política. Os ataques de adversários e a necessidade em revelar lados seus que preferia manter em segredo o desmotivaram de seguir adiante. Uma pessoa fala muito de si sobre o que revela, mas mais ainda sobre aquilo que esconde. Assim, pelo jeito, foi o dono do segundo maior canal de televisão do Brasil. Cris D’Amato oferece um retrato respeitoso, mas não submisso, e Paulo Cursino desenha desenvolvimentos que percorrem essa proposta, sem invadir de modo sensacionalista, mas também sem jogar panos quentes sobre eventuais polêmicas. E se Gavassi – a jovem que não gosta do que não conhece, mas a partir que dele se aproxima também se deixa conquistar – e o núcleo ao seu redor se mostram por demais estereotipados – o namorado compreensivo, o chefe sempre ocupado, o flerte de trabalho que não diz a que veio – será mesmo por Leandro Hassum que Silvio Santos Vem Aí! consegue ligeiramente escapar da vala comum a que tantos projetos similares acabam condenados, elevando-se de uma mediocridade descartável por mostrar que a arte, assim como a vida real, pode ser mais interessante quando a imaginação anda lado a lado dos fatos. Revela-se, enfim, apenas o bastante para que cada um crie o seu próprio personagem. Essa é a postura capaz de fazer diferença.
PAPO DE CINEMA NO YOUTUBE
E que tal dar uma conferida no nosso canal? Assim, você não perde nenhuma discussão sobre novos filmes, clássicos, séries e festivais!
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Destruição Final 2 - 20 de fevereiro de 2026
- A Sapatona Galáctica - 20 de fevereiro de 2026
- Você Só Precisa Matar - 19 de fevereiro de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 6 |
| Alysson Oliveira | 3 |
| Marília Barbosa | 5 |
| MÉDIA | 4.7 |

Deixe um comentário