Crítica

Após anos dirigindo filmes irregulares, como Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (2010), a chatinha continuação de um de seus grandes sucessos, o ok W. (2008), o maniqueísta As Torres Gêmeas (2006) e o desastroso Alexandre (2004), Oliver Stone parecia estar fadado a realizar apenas bons documentários (como Ao Sul da Fronteira, 2009) enquanto suas ficções ficavam cada vez mais monótonas. Ainda bem que Selvagens chegou este ano para mudar o panorama e fazer o autor beber novamente da fonte que conhece de verdade, a violência bem produzida dos ótimos Reviravolta (1997) e Assassinos Por Natureza (1994).

A produção é narrada por Ophelia, ou melhor, O (a belíssima gossip girl Blake Lively) que conta como houve a decadência do império de seus dois namorados Chon (Taylor Kitsch) e Ben (Aaron Taylor-Johnson). Sim, a loira vive uma relação com a dupla em moldes bem mais extravagantes do que Dona Flor e seus dois maridos. Seus amados são melhores amigos desde a infância e chefes de um sistema pacífico de plantação e tráfico da chamada “melhor maconha do mundo”. O esquema começou após Chon trazer do Afeganistão (junto com traumas de guerra) sementes da erva. Sendo Ben um especialista em botânica, logo os tratamentos dados à planta facilitaram a alta qualidade da droga e o dinheiro entrou. O problema é que a chefona do cartel do tráfico mexicano Elena (Salma Hayek) quer se apoderar da composição da maconha e convida (ou melhor, obriga) a dupla a participar de seu esquema. Com a recusa, acaba sequestrando O e obrigando os dois a fazer o que ela bem entender.

A história pode parecer simples, mas é tão recheada de nuances bem trabalhadas e com personagens complexos que fica difícil não torcer para que todos permaneçam vivos o mais tempo possível na tela. A própria Elena, apesar de cruel, tem uma relação estranha com a filha, que não quer vê-la. Sentimento de culpa que acaba fazendo-a criar admiração por O. Já um dos braços direitos da personagem de Salma Hayek, Lado (Benicio Del Toro) é um impiedoso assassino que não tem receio em cortar dedos, atirar em joelhos alheios ou estuprar garotas indefesas, o que acaba criando uma série de desentendimentos com a patroa e nos leva a questionar sua lealdade a ela. Ainda neste amálgama de criaturas interessantes temos o advogado de Elena, Alex (Demián Bichir) que sabe fazer as negociações do cartel como ninguém, e o policial corrupto Dennis (John Travolta), parceiro de longa data de Ben e Chon. Todos importantes à trama, alguns com mais destaque que outros.

Por sinal, por mais talentoso que este quarteto de veteranos do cinema seja, o filme destaca a importância do nosso “casal de três” e Oliver Stone explora bem o talento do seu trio de jovens astros. Com ar de femme fatale aliado a uma doçura ponderada, Blake Lively nunca esteve tão linda e impecável (apesar de sua narração constante da história às vezes irritar um pouco, especialmente na sequência final, mas isso é um problema de roteiro). Aaron Taylor-Johnson, que tinha mostrado extremo potencial em filmes como Kick-Ass – Quebrando Tudo (2010), nos entrega um Ben pacifista e que, à medida que vai afundando na violência da trama, nos faz acreditar no quanto detesta este meio de vida. Já em extrema oposição, Taylor Kitsch faz de Chon uma composição perfeita de máquina mortífera, violento, sarcástico e sem papas na língua.

Engraçado é como a própria história faz questão de argumentar a favor da paixão de O pelos dois quase-irmãos. Como a própria personagem diz: com Chon ela transa, com Ben ela faz amor. Mas isso não quer dizer que um signifique mais que o outro para ela. O amor que Ophelia sente é justamente pela forma como os dois a completam. De um lado temos a virilidade, a explosão emocional, a intensidade com que Chon leva sua vida (só a cena inicial do sexo extremamente quente já argumenta a favor disso). Do outro há Ben e seu estilo pacífico, delicado e gentil. Formas de vida tão diferentes que formam um legítimo yin yang, duplos totais um do outro. E o amor que ambos sentem por O os levam ao limite da (in)decência no modo como tratam o sequestro da parceira.

Porém, esta dualidade não se restringe apenas à dupla principal, mas também do uso do termo “selvagens”. A quadrilha de Elena faz ameaças a seus opositores mandando vídeos via internet de torturas e matanças feitas com quem ousou desafiar a palavra dela, o que faz boa parte do elenco chamá-los, apropriadamente, de selvagens. Mas como a própria O fala em certo momento, a relação e o modo de vida primitiva que ela leva com seus dois rapazes também é uma outra variação da palavra.

Selvagens toma ares de um grande filme ao tratar a recessão dos Estados Unidos como uma das causas de violência extrema. Afinal, o tráfico também passa por uma crise, não é à toa que Elena quer tanto investir na maconha diferenciada. A crítica ao tema, ao lado de cenas de ação e tiroteios extremamente bem realizadas (como o “assalto” dos traficantes), tornam o longa não uma produção inesquecível, mas com certeza uma diversão acima da média e nem um pouco emburrecedora. Que Oliver Stone continue neste caminho.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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