Em Se Você Tivesse Falado, após descobrir um antigo segredo de família, um jovem missionário deixa as Filipinas rumo à Espanha para desvendar o passado e compreender o amor proibido que marcou a vida de seu falecido pai. Nessa jornada, ele se vê dividido entre a fé que jurou defender e a revelação de uma paixão que atravessou fronteiras e décadas. Drama.
Levando em conta a cultura repressora e o fanatismo religioso reinante naquele país, a sua história, diria que o filme foi o mais longe e o mais profundo que poderia, que conseguiria.
Lembrando que as Filipinas são hoje (2026) o único país do mundo onde o divórcio é proibido.
Para os nossos padrões, comparando, por exemplo, com HOMEM COM H, a biografia fílmica de Ney Matogrosso, também de 2025, eu diria que o filme é conformista demais, leve demais e raso como uma poça d'água, no entanto, como eu disse antes, é outra cultura, lá do outro lado do planeta. Já é um avanço para eles conseguir fazer este filme, contar esta história.
O enredo se passa em dois recortes bem precisos de tempo, o hoje agora, onde vive o jovem missionário, em luto pela recente morte do pai, e a década de 1970 ou 1980 do século passado, quando o pai recém falecido era jovem e se correspondia com um rapaz que vivia na Espanha.
Os poucos arroubos de liberdade do pai foram completamente podados pela família, que o submeteu a uma espécie de versão local de "conversão gay" ou "cura gay", seus cabelos foram cortados, ele foi obrigado a se casar com uma mulher e teve o filho, que é o protagonista do filme.
Mais uma vez comparando com HOMEM COM H, infinitamente mais bem trabalhado e multifacetado, que começa num recorte temporal bem anterior, mas atravessa brilhantemente as décadas de 1970 e 1980, de um lado temos uma lição de amor à vida, à liberdade e à arte e do outro uma lição de adequação e adaptação social, de completa e total aceitação de um destino decidido por outros (os pais, o pastor, a sociedade).
Costumo dizer que as portas das igrejas estão abertas e entra quem quer. Além disso, uma vez lá dentro, se não se acredita nos valores que ali estão sendo pregados, se eles colidem com a sua visão de mundo, do mesmo jeito que você entrou, você pode sair!
Mas, ao invés de se autoafirmar e buscar o seu lugar no mundo, correr atrás dos seus sonhos (como Ney Matogrosso), quem sabe indo à Espanha, o que o pai do protagonista fez foi se amoldar ao papel que era esperado que ele desempenhasse.
Ele se tornou um pai amoroso e amado pelo filho? Ele se tornou inesquecível para o seu rebento? Sim, ambas as respostas são sim. Só que a sua inação condenou o seu grande amor à distância à solidão, a uma vida toda incompleta e certamente uma morte desassistida e solitária, onde as únicas lembranças boas são as cartas que trocaram, os sonhos que sonharam juntos e a expectativa, jamais realizada, de uma vida juntos.
Ele não apenas não se realizou (sublimando sua própria subjetividade, supostamente em nome do filho), impediu que outra pessoa, na outra ponta da equação, se realizasse como também deu ao filho - que ele tanto desejou "proteger" - um exemplo tão ruim, de submissão e obediência cega, que este se tornou missionário, exatamente da mesma igreja que arruinou sua vida!
Também questiono até que ponto é válido os pais se anularem em função dos filhos, em qualquer situação.
Neste sentido, o filme não apenas é triste, ele é DECEPCIONANTE. Como professor de História, ainda que aposentado, não posso admitir que em pleno século XXI um filme venha a enaltecer "este tipo" de amor, sinônimo de resignação (não resiliência), de subordinação e de obediência cega a dogmas socias antiquados, datados, e contra os quais qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria se insurgir.
Levando em conta a cultura repressora e o fanatismo religioso reinante naquele país, a sua história, diria que o filme foi o mais longe e o mais profundo que poderia, que conseguiria. Lembrando que as Filipinas são hoje (2026) o único país do mundo onde o divórcio é proibido. Para os nossos padrões, comparando, por exemplo, com HOMEM COM H, a biografia fílmica de Ney Matogrosso, também de 2025, eu diria que o filme é conformista demais, leve demais e raso como uma poça d'água, no entanto, como eu disse antes, é outra cultura, lá do outro lado do planeta. Já é um avanço para eles conseguir fazer este filme, contar esta história. O enredo se passa em dois recortes bem precisos de tempo, o hoje agora, onde vive o jovem missionário, em luto pela recente morte do pai, e a década de 1970 ou 1980 do século passado, quando o pai recém falecido era jovem e se correspondia com um rapaz que vivia na Espanha. Os poucos arroubos de liberdade do pai foram completamente podados pela família, que o submeteu a uma espécie de versão local de "conversão gay" ou "cura gay", seus cabelos foram cortados, ele foi obrigado a se casar com uma mulher e teve o filho, que é o protagonista do filme. Mais uma vez comparando com HOMEM COM H, infinitamente mais bem trabalhado e multifacetado, que começa num recorte temporal bem anterior, mas atravessa brilhantemente as décadas de 1970 e 1980, de um lado temos uma lição de amor à vida, à liberdade e à arte e do outro uma lição de adequação e adaptação social, de completa e total aceitação de um destino decidido por outros (os pais, o pastor, a sociedade). Costumo dizer que as portas das igrejas estão abertas e entra quem quer. Além disso, uma vez lá dentro, se não se acredita nos valores que ali estão sendo pregados, se eles colidem com a sua visão de mundo, do mesmo jeito que você entrou, você pode sair! Mas, ao invés de se autoafirmar e buscar o seu lugar no mundo, correr atrás dos seus sonhos (como Ney Matogrosso), quem sabe indo à Espanha, o que o pai do protagonista fez foi se amoldar ao papel que era esperado que ele desempenhasse. Ele se tornou um pai amoroso e amado pelo filho? Ele se tornou inesquecível para o seu rebento? Sim, ambas as respostas são sim. Só que a sua inação condenou o seu grande amor à distância à solidão, a uma vida toda incompleta e certamente uma morte desassistida e solitária, onde as únicas lembranças boas são as cartas que trocaram, os sonhos que sonharam juntos e a expectativa, jamais realizada, de uma vida juntos. Ele não apenas não se realizou (sublimando sua própria subjetividade, supostamente em nome do filho), impediu que outra pessoa, na outra ponta da equação, se realizasse como também deu ao filho - que ele tanto desejou "proteger" - um exemplo tão ruim, de submissão e obediência cega, que este se tornou missionário, exatamente da mesma igreja que arruinou sua vida! Também questiono até que ponto é válido os pais se anularem em função dos filhos, em qualquer situação. Neste sentido, o filme não apenas é triste, ele é DECEPCIONANTE. Como professor de História, ainda que aposentado, não posso admitir que em pleno século XXI um filme venha a enaltecer "este tipo" de amor, sinônimo de resignação (não resiliência), de subordinação e de obediência cega a dogmas socias antiquados, datados, e contra os quais qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria se insurgir.