Crítica

Você provavelmente já viu esse filme – mas não antes, e sim depois! Isso porque a versão mais conhecida hoje em dia de Sabrina talvez seja a de 1995, com Harrison Ford. Mas a que ficou realmente célebre é esta aqui, de 1954, acima de tudo pelo time que reuniu: Billy Wilder, Humphrey Bogart, William Holden e, claro, Audrey Hepburn no papel-título! A história em si é um tanto bobinha e sem grandes méritos, mas somente o prazer de conferir estes quatro grandes de Hollywood trabalhando juntos já valeria qualquer honra. Mas este filme foi mais e além, e ainda hoje, quase sessenta anos depois, ainda ressoa em nossas memórias como uma das mais belas e românticas histórias de amor da época de ouro do cinema norte-americano!

Sabrina, como não poderia deixar de ser, conta a história de Sabrina. Quando a conhecemos, ela nada mais é do que a filha do chofer de uma família extremamente abastada de Nova York. Uma menina ingênua perdidamente apaixonada pelo filho mais novo dos patrões, um rapaz inconsequente e mulherengo, que ainda a vê como a menina de calças curtas que brincava com ele quando eram crianças. Mas ela cresceu, quer ele perceba ou não. A questão, no entanto, é que esse amadurecimento dela ainda não está completo, e só se finalizará após uma temporada de dois anos em Paris, para onde o pai lhe manda para esfriar as emoções e tentar encontrar uma vocação numa renomada escola de culinária. Quando retorna, como é de se prever, Sabrina é uma nova mulher, muito mais bela e segura de si. O problema é que continua apaixonada pelo mesmo homem – igualmente imaturo quando da partida dela.

O reencontro dos dois é um dos momentos mais divertidos de Sabrina. Afinal, o que temos é uma Audrey Hepburn no auge da beleza, já transformada no ícone fashion que imortalizaria nos anos seguintes, muito bem delineada pelas fantásticas criações do genial Hubert de Givenchy. Holden, quando a vê, não a reconhece, apaixonando-se imediatamente. O prazer estampado no rosto dela ao perceber o desconhecimento dele é quase palpável. E o deleite de estarmos diante de uma verdadeira comédia romântica transborda em ambos os lados da tela.

O problema é que o garoto rico e mimado não pode abandonar a noiva igualmente milionária – e importante para os interesses financeiros da família – para fugir com a filha do chofer. Assim entra em cena o irmão mais velho – Bogart, numa das raras aparições cômicas em toda sua carreira – que irá fingir interesse nela para dissuadi-la da paixão pelo caçula. Mas quem consegue resistir ao charme de Sabrina/Audrey Hepburn?

Billy Wilder já era um diretor consagrado quando fez Sabrina, e talvez por isso o filme tenha despertado tanto interesse. Um roteiro simples, tolo até, mas que comoveu platéias e permanece até hoje como referência. Chegou a receber 6 indicações ao Oscar – as de Direção, para Wilder, e de Atriz, para Hepburn, só são explicáveis dentro de um contexto de época – ganhando como Melhor Figurino (um dos 8 conquistados pela genial Edith Head), além de ter ganho também o Globo de Ouro de Melhor Roteiro, entre outros reconhecimentos. As histórias dos bastidores são um capítulo à parte – Bogart e Holden se odiavam, Hepburn recebeu um salário cerca de 10 vezes menor do que o dos seus colegas masculinos – e não merecem maiores atenções agora. Pois o que importa é que temos aqui um filme que só melhora com o tempo, que começa com um “era uma vez” tão clássico quanto imortal, e que nos deixa com um sorriso no rosto típico dos contos de fadas.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar

Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Comentários