Onde Assistir
Sinopse
Rose se passa no início do século XVII, em uma aldeia protestante isolada na Alemanha, quando um soldado misterioso chega afirmando ser herdeiro de uma antiga propriedade abandonada. De aparência discreta e com o rosto marcado por uma cicatriz, ele apresenta um documento para sustentar sua reivindicação e enfrenta a desconfiança inicial dos moradores. Drama.
Crítica
Sandra Hüller se tornou uma atriz celebrada pela crítica internacional bem antes de se converter em um rosto mundialmente conhecido por conta de seu trabalho em títulos como Zona de Interesse (2023) e Anatomia de uma Queda (2023), sendo este último o filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, apenas a terceira ocasião em que uma intérprete alemã foi assim reconhecida na história do prêmio. Quando a academia a agraciou, no entanto, Hüller já havia estrelado As Faces de Toni Erdmann (2016), obra de grande ressonância no espaço da cinefilia, e vencido o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim (em, 2006, por Requiem, de Hans-Christian Schmid), feito que ela pode repetir nos próximos dias, exatamente vinte anos depois, por sua interpretação no papel-título de Rose, de Markus Schleinzer.

A obra, que conta a saga de uma mulher que, na Alemanha do século XVII, ousou assumir uma identidade masculina em busca de autonomia, é repleta de elementos-chave para cair nas graças da crítica (de fato, o longa vem sendo bem recebido e acumula boas médias nos tradicionais quadros de notas que reúnem profissionais da área). O longa-metragem, inspirado em uma série de casos semelhantes documentados, como explica o diretor em entrevistas, debate a restrita posição ocupada pela mulher na sociedade da época e a repressão ao desejo e à ambição femininas. Fazendo-se passar por homem, Rose serve ao exército e, após sua dispensa, chega a um vilarejo isolado para reclamar para si a herança de outro soldado, morto em batalha, cuja identidade ela passa a assumir. Convertendo-se em um proprietário de terras respeitado por sua bravura (ela chega a caçar um urso), essa figura misteriosa se torna popular no povoado. Para manter seu status, Rose aceita desposar a filha de outro senhor de terras, decisão que acaba por comprometer o disfarce. Interessantemente, nem Rose nem sua esposa se conformam ao que é esperado de seu gênero e, justamente por isso, vão vir a sofrer, ambas, as consequências do desafio à norma.
Se a opção pela fotografia em preto e branco (assinada por Gerald Kerkletz) e a boa caracterização (Rose sustenta uma grande cicatriz no rosto) dão maior realismo à trama, cabe notar que o filme não se preocupa em fazer com que a protagonista de fato tenha total passabilidade masculina. Ao contrário, salienta-se sua distância daqueles à sua volta, delineando o perfil de um sujeito que, mesmo quando se conforma à ordem social, permanece de alguma maneira à margem, um indivíduo excêntrico, que instiga olhares de confusão e fascínio. A excentricidade desse personagem é salientada pelo fato de que ele carrega, num colar ao redor do pescoço, a bala que deformou seu rosto, que leva por diversas vezes à boca, como que revivendo a experiência de ter seu corpo transpassado pelo objeto que o feriu. Além disso, o gesto é um prenúncio sinistro da violência que ameaça a existência de Rose a cada instante, cuja explosão o espectador pressente.

A narração dá um tom de fábula ao enredo e salienta a feminilidade evidente do nome Rose. Se o narrador extradiegético já se revela uma opção incomum no cinema, trazer uma voz feminina é ainda menos corrente. Essa ótima opção ressalta o deslocamento: também no cinema, o narrador todo-poderoso, que tudo vê e relata, precisa ser um homem. A convivência entre Rose e a esposa, Suzanna (Caro Braun), sublinha de maneira instigante semelhanças e diferenças: Rose vislumbra em Suzanna o lugar do qual conseguiu escapar, enquanto a esposa deseja aprender a ler e escrever como “o marido”. O roteiro delineia a identidade de gênero de Rose de forma inequívoca: não estamos diante de um homem trans, mas sim de uma mulher que assume o masculino como passaporte para uma existência para além dos estreitos limites que lhe foram impostos. Neste sentido, ao tratar da Alemanha no período ainda anterior à sua unificação, o filme debate, de forma inteligente, a atualidade e seus espaços ainda sufocantes para a mulher.
Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026
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