Crítica

A Animação é um estilo de se fazer cinema que pode ser acusado de várias coisas, menos de leviandade. Afinal, leva-se anos para que cada novo filme fique pronto, e toda decisão, gesto ou diálogo precisa ser muito bem estudado, pensado e refletido até sua execução, pois envolve muito mais do que apenas uma única e singular tomada de atitude. Uma vez ciente de como as coisas funcionam, portanto, é quase impossível a sensação de constrangimento diante de um filme como Rock Dog: No Faro do Sucesso, principalmente por ser assinado por Ash Brannon, cujos créditos anteriores são os muito superiores Tá Dando Onda (2007) – indicado ao Oscar – e Toy Story 2 (1999) – vencedor do Annie Awards, o prêmio máximo do gênero.

Partindo de uma ideia própria, Brannon concebeu a trajetória de Bodi (voz de Luke Wilson), um mastim tibetano – cachorros que parecem verdadeiros leões – que vive no alto de uma montanha e durante toda sua vida foi preparado para o dia que precisar substituir o pai, guardião das ovelhas que moram por ali. Só que ao invés de afugentar lobos, tudo o que o rapaz quer é ser músico. Ou seja, mais uma vez estamos diante do herói involuntário, que irá renegar sua herança para poder mostrar seu verdadeiro valor. Um conto tão antigo que vai do clássico Pinóquio (1940) – quem nunca se rebelou contra os desejos paternos? – até o recente Moana: Um Mar de Aventuras (2016) – muda-se o gênero, mantém-se o mesmo conflito.

Se não há nada de muito original no argumento, o uso da música – que começa a chamar atenção pelo título – também termina por não se mostrar um diferencial à altura das expectativas – muito diferente do que vimos em Sing: Quem Canta Seus Males Espanta (2016), por exemplo. Bodi abandona sua casa rumo à cidade grande por que quer aprender com o melhor: no caso, o gato cantor Angus Scattergood (voz de Eddie Izzard). Esse, como é de praxe em casos assim, não é bem o que se espera dele. Inseguro e egocêntrico, não dá bola para os fãs e sofre com o desejo do produtor para entregar um novo single. O encontro, ainda que atrapalhado, com o novato irá despertar nele inspirações inesperadas. E enquanto um precisa decidir se toma para si a autoria da nova canção e o outro descobre que há uma matilha de lobos no seu encalço, há ainda um mistério a ser revelado: como fazer o protagonista encontrar seu verdadeiro valor, uma força misteriosa que pode surgir até num simples dedilhar de cordas do violão.

Elaborado de forma bastante linear, não sobram muitas surpresas para o espectador mais exigente diante de Rock Dog: No Faro do Sucesso. Bodi é ingênuo ao ponto de ser irritante, porém sem a simpatia de um Steve Martin ou Jerry Lewis nos melhores momentos de suas carreiras. Angus só pensa em si, como dita o estereótipo de qualquer artista como ele, mas seu bom coração não tardará em se manifestar. Os lobos, os verdadeiros vilões da história, em nenhum momento chegam a constituir uma ameaça verdadeira – vão fazer o que, comer as pobres ovelhinhas? – e os demais coadjuvantes, como o pai Khampa, o iaque Fleetwood e a cantora Darma, são até simpáticos, porém pouco desenvolvidos – dificilmente alguém do lado de cá da tela conseguirá sentir por qualquer um deles mais do que uma mera simpatia. E sem se importar de verdade, o que resta no fim das contas?

Dono de um traço muito simples e com personagens carentes de maiores atrações, Rock Dog: No Faro do Sucesso ao menos não se exime de defender boas mensagens, que ao menos deverão ser assimiladas sem muito esforço pelo seu público-alvo: crianças muito pequenas. E sem que o duelo entre cão e gato se justifique e nem as diferenças entre vida urbana e interior se mostrem relevantes, quem acaba se destacando mesmo são as ovelhas descerebradas, que tudo esquecem, estão sempre felizes e, em última análise, são a causa de todo o desenrolar da trama. Tudo acontece ao redor delas, que nem imaginam serem motivo de tamanho alvoroço, apenas aproveitando o momento. Mais ou menos como o que aqui vemos, um passatempo que não é e nem se esforça em ser mais do que apenas isso: passageiro e descartável.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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