Querido Mundo

Crítica


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Sinopse

Em Querido Mundo, a queda de uma ponte numa noite de tempestade une os mundos de Elsa e Oswaldo, que acabam por se encontrar no Rio de Janeiro às vésperas do Ano Novo, nos escombros de um prédio abandonado por seus construtores. Drama.

Crítica

Para quem acompanhou Veneza (2019), o novo trabalho de Miguel Falabella desperta sensação de familiaridade. Em Querido Mundo, o diretor retorna ao território em que deposita maior confiança: seus intérpretes, pois mais do que a força do texto, é o talento do elenco que sustenta a empreitada. Se na aposta do final da década passada havia uma constelação de personagens em busca de redenção, aqui a narrativa se concentra em um casal que, pela passividade com que encara o mundo, remete a outro tempo. Baseado em peça de décadas atrás, o projeto carrega um ar de descompasso com a atualidade, ainda que a habilidade dos atores amorteça essa distância.

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Na trama, acompanhamos Elsa (Malu Galli), mulher marcada por anos de violência doméstica às mãos do marido Gilberto (Marcello Novaes), e Oswaldo (Eduardo Moscovis), engenheiro em crise após ser deixado por Odila (Danielle Winits). Ambos se cruzam no Rio de Janeiro e, após um acidente em um edifício abandonado, iniciam relação improvável. Em meio a ruínas, nasce um encontro que abre espaço para a reconstrução de vidas despedaçadas. A narrativa aposta na intimidade de gestos cotidianos, nos detalhes que conduzem ao renascimento e no lirismo da união entre mundos opostos.

Desde o início, as atuações de Malu e Moscovis se destacam. Mesmo em seus rompimentos, ambos já revelam fragilidade que pode causar incômodo, mas logo se converte em doçura que sustenta o interesse. Falabella organiza a encenação como fábula, aproximando o espectador da fantasia que o fascina como criador. A fotografia em preto e branco reforça a atmosfera nostálgica, escolha estética contribui para a sensação de deslocamento temporal, como se tudo acontecesse em outra época.

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Galli imprime doçura à sua Elsa, mulher que, apesar das feridas, preserva a crença no afeto. Moscovis confere a Oswaldo bondade quase ingênua, sustentada pela convicção de que o destino conspira em favor da justiça. Em contraste, Novaes incorpora um Gilberto que representa a masculinidade ultrapassada, figura de poder já esvaziada, enquanto Winits entrega a Odila uma energia mordaz, fiel ao estilo que consolidou sua trajetória televisiva. Um jogo entre polos que sustenta o interesse.

Ainda assim, certas escolhas comprometem o alcance do título, a começar pela trilha sonora, excessiva e explicativa, empurrando cada emoção como se não houvesse confiança no argumento. Mais complexa ainda é a forma como a peça foi transportada para o cinema em 2025, sem atualização de algumas perspectivas. Elsa, mulher madura, não encontra saída por si mesma: passa do jugo de um homem ao amparo de outro. A fragilidade da personagem, embora realista em alguns contextos, carece de dignidade narrativa, reduzindo suas possibilidades de crescimento. Galli, com talento, suaviza as limitações, mas não as elimina.

Querido Mundo

O resultado de Querido Mundo é positivo, ainda que mais pelo vigor do elenco do que pela pertinência da adaptação. Falabella insiste em homenagear um cinema melodramático, que aposta na fantasia e no afeto como motor de encantamento. Há beleza nesse gesto, mas também consciência de que o tempo parece fechado em círculo: retornamos ao ponto de partida, diante de uma história que soa antiga, mas que ainda busca ressonância no presente.

Filme visto durante o Festival de Cinema de Gramado 2025;

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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