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Sinopse
Politiktok acompanha os últimos dias das eleições presidenciais brasileiras de 2022 através de lives e edits da famosa rede social chinesa, que naquele momento tinha cerca de 80 milhões de usuários ativos no país. Através das imagens, o Brasil é visto em transformação. Documentário.
Crítica
Poucos debates contemporâneos são tão inflamados quanto aqueles que envolvem as plataformas digitais e suas consequências políticas, éticas e sociais. O TikTok, rede social chinesa que ganhou notoriedade a partir de 2020 como território das dancinhas virais, rapidamente deixou de ser percebido apenas como espaço lúdico para se afirmar como arena de disputas simbólicas e ideológicas. Dois anos depois de sua popularização no Brasil, a plataforma esteve no centro de um dos momentos mais decisivos da democracia recente: as eleições presidenciais de 2022, quando a possibilidade de segundo mandato de Jair Bolsonaro acendeu alertas sobre riscos autoritários que viriam a se confirmar em investigações posteriores. Em Politiktok, Álvaro Andrade Alves organiza quantidade quase sufocante de vídeos produzidos nesse contexto, construindo, ao longo de quase duas horas, mosaico de vozes e gestos daquele período. O registro é interessante, mas permanece a pergunta: a quem ele interessa?
O filme se estrutura a partir do acúmulo. São vídeos bolsonaristas e lulistas exibidos em sequência, sempre no formato vertical, preservando a linguagem original da plataforma. As laterais da tela mergulham no preto absoluto, enquanto o centro se transforma na superfície luminosa do celular, funcionando como farol que conduz o espectador por lembranças recentes demais. Há um prólogo de aquecimento, com a expectativa que antecede a votação, o durante, marcado por embates, provocações e torcidas exaltadas, e o pós, quando a euforia de uns contrasta com o desespero de outros. O efeito é o de viagem temporal para lugar desconfortável, um passado que muitos prefeririam não revisitar tão cedo.

Talvez o maior mérito de Andrade Alves esteja na capacidade de pinçar momentos involuntariamente cômicos em meio a cenário de alta gravidade institucional. Um humor ácido atravessa o material, lembrando que, apesar do risco real envolvido, o espetáculo político nas redes também se constrói pelo absurdo. Ainda assim, a seriedade insiste em se impor, especialmente nos prólogos e epílogos que buscam contextualizar os acontecimentos. A sensação predominante, contudo, é a de que se trata de passado ainda excessivamente próximo, que não chegou a se sedimentar como memória histórica. Afinal, basta busca rápida pela hashtag “eleições2022” no próprio aplicativo para que tudo esteja novamente disponível, bruto e sem mediação.
Nesse sentido, Politiktok parece consciente de seus próprios limites. Não há revelações inéditas, tampouco um esforço interpretativo mais profundo. O projeto expõe o esgoto que essas plataformas podem se tornar em momentos de radicalização, mas evita o debate, a análise ou o juízo explícito. Limita-se a mostrar, como se a simples exposição já fosse suficiente. Resta saber se, em um cotidiano saturado por esse mesmo tipo de conteúdo, a repetição ainda provoca reflexão ou apenas reforça o cansaço diante de algo que, para muitos, já foi visto – e revisto – vezes demais.
Filme visto na Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.
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