Crítica

Depois de filmes como os recentes Gravidade (2013) e Interestelar (2014), o gênero ficção científica parecia ter voltado às boas graças com a crítica dos tempos de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) ou mesmo Alien: O Oitavo Passageiro (1979). Porém, para cada A Chegada (2016), ainda em cartaz nos cinemas, infelizmente é preciso reconhecer que existe um ou vários como esse Passageiros, longa que demonstra problemas logo no seu conceito, que dirá em sua realização. A trama criada por Jon Spaihts (o mesmo dos superiores Prometheus, 2012, e Doutor Estranho, 2016) é equivocada em mais de um nível de leitura – o que explica ter circulado por Hollywood desde 2007, e só agora ganho uma chance nas telas. É de se lamentar, no entanto, que nem mesmo os talentos envolvidos tenham sido capazes de tornar a produção digna dos interesses levantados.

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Recusado por astros como Keanu Reeves, Reese Witherspoon, Rachel McAdams e Emily Blunt, Passageiros acabou ganhando sinal verde apenas quando a oscarizada Jennifer Lawrence e o neogalã Chris Pratt assumiram os postos de protagonistas. Os dois estão em cena a maior parte do tempo – mas não o tempo todo, como o trailer enganador tenta vender ao espectador mais desatento. Isso porque estão em uma nave espacial, a Avalon, que está levando centenas de pessoas em estado de hibernação ao uma nova Terra, onde a vida seria melhor e mais confortável, longe do estado de deterioração em que nosso planeta irá se encontrar no futuro. Totalmente automatizada, a espaçonave começa a sofrer anomalias em seu funcionamento após passar por uma chuva de meteoros. O primeiro sinal de que algo está errado é quando a cápsula que guarda Jim (Pratt) para de funcionar e ele acorda. Desperto, descobre que faltam 90 anos para chegarem ao destino final. Ou seja, acaba de perceber que foi condenado a uma existência de solidão em pleno espaço, sem ninguém para lhe fazer companhia além do robô bartender que atende pelo nome Arthur (Michael Sheen, o melhor do elenco, ainda que com pouco à disposição) e nunca abandona do próprio posto.

É importante, neste ponto, perceber como as coisas estão de desenrolando. Ou seja, não temos um caso de Adão e Eva dando início a um novo estilo de vida. Afinal, esse Adão aqui está sozinho. Somente ele acordou de modo aleatório. Aurora (Lawrence) não está atenta no outro lado da embarcação e prestes a cruzar com ele. Pelo contrário, assim como todos os demais, ela segue dormindo. A decisão de tirá-la do sono profundo, portanto, é inteiramente dele, que a escolhe dentre tantas, e após muito considerar e refletir, interrompe seu estado para que, enfim, possa ter alguém com quem conversar (e dançar, e jantar, e transar). É um ato puramente egoísta que o move. Muitos pensarão: “mas quem, na mesma situação, não faria o mesmo?”. Bom, qualquer um não propenso a condenar outra pessoa à morte isolada de tudo e todos que conhece.

Sem se ater a que problemas são esses que a nave está enfrentando e como contorná-los, logo um terceiro – ou quarto – elemento entra em cena, sendo agora o capitão vivido por Laurence Fishburne. Este, ao contrário da moça e assim como o primeiro, também desperta por conta própria. E pouco faz em cena além de oferecer opções ao casal. Caberá aos dois, portanto, lidar com o problema que tem em mãos – tanto literalmente, com o lugar onde estão encarcerados, como entre eles, a partir do momento em que ela descobrir a verdade sobre sua condição. O estado de abandono a que Jim fica enquanto sozinho parece mais indicado a comover – uma reação básica, portanto – do que estimular a reflexão, como visto, por exemplo, no que enfrenta em posição semelhante Sam Rockwell em Lunar (2009). Assim como ela, que com menos em cena e assumindo uma figura quase que decorativa, deixa de lado os grandes papeis que a atriz já defendeu para não ir além do clichê.

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O diretor Morten Tyldum chegou a ser indicado ao Oscar por sua performance em O Jogo da Imitação (2014), mas seu grande trabalho segue sendo o thriller Headhunters (2011), deixando claro que se sai melhor na sua Noruega natal do que em Hollywood. Passageiros é um filme que tenta se apoiar por demasiado no carisma de seus protagonistas – Lawrence ganhou US$ 20 milhões, enquanto que Pratt recebeu US$ 12 milhões – e em um visual que não chega a chamar atenção pela originalidade – a única grande cena é a da piscina sem gravidade – ao mesmo tempo em que insere em seu enredo questionamentos morais e éticos de grande profundidade, apenas para tratá-los com desprezo e/ou leviandade. Em resumo, é uma obra vazia, reflexo do que a meca do cinema norte-americano é capaz de fazer de pior, isentando-se da responsabilidade de ir além do próprio espelho para buscar algo que fuja dos clichês e conquiste não pela obviedade, mas, sim, por surpreender com o mínimo.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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