
Sinopse
Em Papagaios, Tunico é o mais famoso “Papagaio de Pirata” do Rio de Janeiro e está sempre perseguindo repórteres para aparecer na TV. Depois de um grave acidente, conhece Beto, jovem misterioso que se torna seu aprendiz. Este encontro revelará a face oculta da busca pela fama a qualquer custo, em um Brasil com mais de 70 milhões de televisores ligados todos os dias. Drama.
Crítica
Alguém aí já tinha ouvido a expressão “papagaio de pirata”? Pois bem, é de se imaginar que quase todo brasileiro a conheça. Serve para definir aquele desavisado que, na maioria das vezes, aparece por acaso em imagens nas quais o foco está em outra(s) pessoa(s). É o cidadão ao fundo, pego de improviso, muitas vezes olhando diretamente para a câmera e tendo esse instante de surpresa eternizado em conjunto com aqueles que se prepararam para o registro – ou ao menos por ele esperavam. Pois bem, eis que o diretor Douglas Soares se ocupa agora com personagens que fazem dessa aparente casualidade uma profissão – ou quase isso. Em Papagaios, os protagonistas vivem de se fazer presente no momento dos outros. Querem ser reconhecidos, lembrados, marcados. E essa obstinação, se a princípio parece ser cômica, basta um olhar mais detalhado para que se perceba a psicopatia que esconde. Felizmente, este é o percurso trilhado pelo cineasta, em uma obra que começa engraçada, mas gradualmente vai trocando esse tom pelo de um thriller arrepiante e cujo desfecho, se por uns pode ser até mesmo antecipado, com a maioria da plateia seguirá repercutindo por muito após sua exibição.
Co-roteirista e produtor de Mais do que eu possa me reconhecer (2015) e co-diretor de Esse amor que nos consome (2012), Douglas Soares retoma sua parceria com Allan Ribeiro, que em Papagaios assina a montagem. Os dois são responsáveis por imprimir ao longa mais recente uma narrativa que vai envolvendo aos poucos, sem pressa ou atropelos, reservando para passagens bem pensadas seus pontos de virada, provocando, assim, uma alternância que se encaixa à proposta almejada. Logo na sequência de abertura, um brinquedo em um parque de diversões sofre um problema técnico, resultando em feridos e a atenção da mídia, que vai ao local para uma reportagem. É a oportunidade para que câmeras de televisão se aproximem, em depoimentos e entrevistas que invadirão as casas de milhares. Enquanto a repórter faz sua matéria, um grupo se aglomera atrás dela, praticamente compondo o cenário. É nesse contexto que Tunico (Gero Camilo, assombroso em uma simplicidade que vai da fraqueza à autoridade em questão de segundos) chega, afastando amadores e assumindo com tranquilidade uma posição de destaque. Quando as luzes se acenderem, será ele que estará em… segundo plano – que é o máximo que podem ambicionar. Para a maioria, passará desapercebido. Mas alguns irão reparar no suposto transeunte muito bem colocado ao fundo acompanhando os dizeres jornalísticos. Essa é a memória que até então ele pode sonhar.
Mas é nesse não encontro que as coisas começam a mudar. Sim, pois na mesma ocasião, observando-o ao longe, estava Beto (Ruan Aguiar, que após ter aparecido em novelas como Um Lugar Ao Sol, 2021-2022, e Fuzuê, 2023-2024, estreia agora no cinema já em um papel proeminente). O rapaz de cara fechada e muito mais jovem não tardará em se fazer presente. No começo, suas intenções soam um tanto difusas. Afinal, por mais que Tunico se outorgue uma importância acima dos seus iguais, essa parece existir apenas entre eles, nesse microcosmo de mediocridade e irrelevância. Então, quais as intenções de Beto com o veterano? Quer se tornar ele também um “papagaio”? Mas o que ganha com isso? Enquanto o velho tem delírios com sindicatos entre os colegas e projetos maiores para organizar a atividade, o novato demonstra em suas atitudes ter um objetivo bem delineado. Qual seria? Eis o mistério proposto por Soares em uma parceria inusitada com o ator Humberto Carrão, estreante como roteirista. A dupla que os dois constroem no centro dos acontecimentos vão da dinâmica de mestre e aprendiz ao embate como se concorrentes fossem. Acompanhar o avanço dos acontecimentos e a transformação dessa relação é o que mantém a audiência ligada à narrativa.
Se por um lado Ruan Aguiar pesa um pouco a mão no retrato deste homem com uma agenda particular – e isso não é culpa apenas do intérprete, mas também do diretor que não extraiu dele a nuance necessária ao personagem – esse yin e yang se completa em um Gero Camilo em estado de graça. A defesa do tipo de ostenta é tão intensa que exige do espectador um certo distanciamento para conseguir condenar seu comportamento. A torcida por ele surtirá de forma quase natural, gerando um maior confronto frente a uma conclusão tão previsível (pela consequência alcançada como sonho de toda figura como ele) quanto inesperada (os planos nunca saem conforme pensados). Com participações deliciosas e saudosistas e ídolos de anos atrás, como o cantor Leo Jaime e a apresentadora Claudete Troiano, Papagaios funciona em mais de um nível de exigência: como sátira de costumes, comédia de situação, suspense psicológico e mistério investigativo. Um feito e tanto para um primeiro trabalho, algo que de forma alguma pode ser desconsiderado diante um ou outro tropeço, pois o conjunto se confirma maior do que suas partes em separado.
Filme visto durante o 53o Festival de Cinema de Gramado, em agosto de 2025


Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Anônimo 2 - 28 de agosto de 2025
- C.I.C.: Central de Inteligência Cearense - 28 de agosto de 2025
- O Último Azul - 28 de agosto de 2025
Deixe um comentário