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Sinopse
Em Os Bastidores do Amor, há anos, Henri e Nora compartilham tudo: eles se amam e ela dirige as peças em que ele atua. Quando Henri consegue, pela primeira vez, um papel no cinema, a criação de seu novo espetáculo desmorona e o casal se despedaça. Romance/Drama.
Crítica
Estreando no comando de longas, Victor Rodenbach tece aqui uma teia de situações românticas que parecem caras ao seu universo criativo – o da arte. Mas esse cenário funciona mais como pano de fundo do que como tema central, já que os conflitos vividos pelo casal protagonista dialogam diretamente com dilemas contemporâneos. Quem nunca se perguntou se poderia – ou deveria – trabalhar ao lado do próprio cônjuge? Para muitos, a resposta é um não automático: “estragaria o relacionamento”. Para outros, o que estraga, na verdade, é a distância. Rodenbach parte desse impasse com humor e simplicidade, conduzindo um filme que abraça o feijão com arroz, mas menos temperado do que poderia.

Na trama, Henri (William Lebghil) e Nora (Vimala Pons) são parceiros na vida e no palco, onde ela assume a direção de suas peças. Tudo parece bem ajustado, e ambos vivem a arte com naturalidade, como parte do cotidiano. Mas quando Henri conquista um papel relevante no cinema – o que seria a estreia dele na sétima arte – o novo espetáculo teatral da dupla e o próprio relacionamento começam a ruir. Ele se atrasa, mistura falas, perde o foco. Ela, por sua vez, passa a interpretar a mudança como desinteresse: acredita que ele não se contenta mais com o teatro, que deseja os holofotes, que ambiciona o status de estrela. Ele acha que Nora está sendo mesquinha. Ela acredita que ele está se afastando. O longo e gritante atrito que se forma entre os dois é o que impulsiona a narrativa.
É interessante observar como Rodenbach se apoia na ideia de casal extremamente sintonizado. Lebghil e Vimala funcionam tão bem juntos que, por vezes, parecem mesmo ser companheiros na vida real. As brincadeiras sexuais, o humor íntimo, a seriedade compartilhada no trabalho e a forma como vivem como se cada dia fosse um pequeno feriado ajudam a consolidar essa dinâmica luminosa. E, ao transpor essa energia para a tela, o diretor se vale da cumplicidade do espectador: seduzidos por esse casal ao mesmo tempo comum e excêntrico, também torcemos para que eles permaneçam juntos. No entanto, à medida que os conflitos se impõem, as idas e vindas se multiplicam. Algumas funcionam melhor; outras soam protocolares. E, apesar do encanto dos protagonistas, o roteiro concebido por Rodenbach, Camille Lugan, Vladimir Haulet e Pauline Bayle parece não encontrar grande inspiração para preencher o miolo.

Os Bastidores do Amor é charmoso e funciona quando aposta na química natural entre seus dois intérpretes. É agradável ver seus rituais, suas cumplicidades, seus pequenos desastres cotidianos. Mas a sensação persistente é a de que Rodenbach esconde algo do espectador – como se houvesse, em algum lugar, uma camada mais profunda a ser explorada, uma intimidade que nunca chega a ser realmente aberta. Dessa forma, parece esquecer que histórias de casal também dependem de arco, consequência e, talvez, alguma transformação. No balanço final, o filme dá a sensação de circular em torno do mesmo lugar, apresentando um atrito breve que não deixa marcas profundas.
Filme visto durante o Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.
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