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Em O Sobrevivente, um homem desesperado se junta a um game show extremamente violento no qual os competidores, que podem ir a qualquer lugar do mundo, são procurados por "caçadores" empregados para matá-los. Aquele que conseguir se esconder e permanecer vivo por 30 dias, será vitorioso. Ação.

Crítica
Conta a lenda que, no final dos anos 1950, ao procurar por um ideia que o motivasse a realizar seu próximo filme, Alfred Hitchcock teria se ocupado com uma pilha de romances enviados ao seu escritório até escolher por aquele que daria origem ao clássico Psicose (1960). Quando questionado sobre o que essa trama continha para ter mexido tanto com ele, sua resposta foi sucinta: “era o pior de todos aqueles livros”. Processo semelhante viveu Stanley Kubrick duas décadas depois ao escolher O Iluminado (1980) como seu projeto seguinte. O autor, Stephen King, odiou a adaptação. Mas o cineasta foi bastante direto: “é muito mais fácil pegar algo ruim e transformá-lo em uma obra boa do que se apropriar de um argumento já bem elaborado e torná-lo ainda melhor”. Eis o ponto que talvez explique a razão de se ter tantas transposições dos textos de King para o audiovisual. O Sobrevivente é só mais uma dentre tantas. Com os mesmos problemas da grande maioria. Inclusive, mostrando-se ainda mais comprometida e equivocada em sua apresentação enquanto longa independente das amarras que o dão base. Parece que nunca consegue se sustentar por si só, existindo apenas em decorrência de anseios, vontades e agendas de outros. Eis, enfim, um filme-panfleto, que serve para levantar bandeiras vazias e incoerente até mesmo naquilo que parece defender, elevando um lado enquanto age de acordo com o oposto.
Esse resultado falho não é privilégio único do trabalho assinado pelo outrora talentoso Edgar Wright. A primeira tentativa de se levar essa história para a tela grande – O Sobrevivente (1987) – sofria do mesmo mal. E se por um lado Glen Powell é um ator mais versátil do que o Arnold Schwarzenegger em início de carreira, ele não dispõe de tantas condições que possam elevar esse conjunto acima de uma mediocridade atroz apenas pela sua simpática presença. É por ele, sim, que o espectador permanecerá atento por grande parte da projeção. Mas será por ele também que surgirá quase ao término um inevitável sentimento de traição. “Foi para isso que fiquei ao seu lado?”, se perguntarão aqueles minimamente surpresos com o nível de descartabilidade ao que esse conjunto se mostrará sujeito. Aos demais, tal percepção se mostrará incontornável muito antes. O conto de um homem contra o mundo, do injustiçado frente a um governo selvagem e assassino imerso a uma realidade distópica já havia sido explorado com menos ambição no primeiro texto de King, recentemente adaptado em A Longa Marcha (2025). A maioria, no entanto, deverá reconhecer ecos de sagas adolescentes como Jogos Vorazes ou Divergente. Nada de novo no front, portanto.

Se a versão estrelada por Schwarzenegger envelheceu mal, ressaltando seu caráter quase amador, ao menos manteve o mérito de ir direto ao ponto. Wright, por sua vez, também autor do roteiro, ao lado de Michael Bacall (os dois haviam trabalhado junto antes no superior Scott Pilgrim Contra o Mundo, 2010), estende até o limite da paciência algo que não necessitaria de tantos rodeios. Ao invés de preso e condenado, o Ben Richards (Powell, com a atitude correta para os desafios físicos que lhes são propostos, mas sem a dramaticidade convincente frente ao dilema vivido por seu personagem) da vez se voluntaria a participar de um reality show de vida ou morte. Pobre, com a filha doente e sem condições de ascender socialmente, encontra nessa oportunidade sua única chance de “conquistar milhões e mudar de vida”. Para tanto, precisa permanecer vivo por 30 dias. Em uma sociedade na qual qualquer estranho poderá delatá-lo, as televisões tanto exibem, como também capturam, e há olhos vigilantes por todos os lados. O debate demonstra esforço em abordar questões como fake news, discurso de ódio, falta de empatia social e discriminações variadas, mas tudo é por demais raso para merecer uma atenção demorada, seja pela forma como é exposto, como também pelos parcos desdobramentos aos quais o enredo se ocupa.
Lembrando os piores momentos de A Firma (1993), um dos títulos menos lembrados da filmografia de Tom Cruise, no qual ele se envolvia numa conspiração na qual ninguém lhe dizia a verdade e por isso seu personagem passava quase o tempo todo correndo de um lado para outro para não ser pego, ou fazendo uso do mesmo argumento de Vidas em Jogo (1997), produção esquecida assinada por David Fincher, esse O Sobrevivente parece fazer referência mais ao hercúleo esforço daquele na audiência que aguardar até o acender das luzes, uma vez que é sabido que o herói chegará ao final ileso e vitorioso – como é de praxe em qualquer conto fantasioso pretensamente munido de consciência social como esse que aqui se apresenta. E quando o protagonista se mostrar revoltado com o pedido final do vilão, em seu recurso derradeiro para convencê-lo a ficar ao seu lado, o que o mocinho acabará fazendo: exatamente aquilo que lhe foi pedido, porém negando que se sujeitaria a tamanha conivência. Incoerências não faltam. Frágil em uma visão inocente da realidade e incapaz de elevar sua alegoria a qualquer tipo de análise mais consistente, frustra igualmente enquanto passatempo, visto a quantidade de absurdos e improbabilidades que vai acumulando no decorrer dos acontecimentos. E sem servir nem a um, nem a outro patrão, termina confirmando-se tão anacrônico quanto o original. Naquele, ao menos, os figurinos eram mais coloridos e divertidos. Aqui, nem isso.
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