Crítica

Após o bem sucedido A Religiosa (2013) – exibido no Festival de Berlim e indicado ao César – o diretor Guillaume Nicloux volta às telas com uma obra original e provocadora: O Sequestro de Michel Houellebecq, exibido no Festival de Sydney e premiado como melhor roteiro no Festival de Tribeca, nos EUA. Este último reconhecimento, aliás, apresentou uma justificativa que é mais do que suficiente para explicar qualquer atenção ao longa. Senão, vejamos: “este roteirista teve a habilidade de reunir um fisiculturista, um cigano, uma prostituta e um mundialmente renomado poeta em algemas, juntos em uma mesa de jantar, e fez com que esta união não soasse estranha; quando a linguagem de um filme se desenvolve de maneira tão natural a ponto de fazer com que o espectador se esqueça que, de fato, havia um roteiro escrito pelo qual a trama se guiou, o autor deste texto merece um reconhecimento especial”. De fato, é difícil discordar destes argumentos.

Michel Houellbecq é um escritor francês reconhecido internacionalmente. Autor de romances como o polêmico Partículas Elementares (1998) e O Mapa e o Território (2010), pelo qual recebeu o Prêmio Goncourt – o mais importante do gênero na França. É considerado um dos expoentes da atual renovação da literatura francesa, tendo se aventurado também na poesia, ensaios, textos e novelas. Figura influente no meio cultural, sua primeira ligação com o cinema foi com o curta Cristal de Souffrance (1978), em que atuou, dirigiu e escreveu o roteiro. Desde então essa relação tem sido esporádica. Ao longo de quase quatro décadas dirigiu mais alguns curtas, projetos para a televisão e apenas um longa exibido no cinema, A Possibilidade de uma Ilha (2008), a partir de um romance de sua própria autoria. Enquanto intérprete, no entanto, nunca esteve tão abertamente entregue quanto em O Sequestro de Michel Houellbecq, em que interpreta a si mesmo – ou uma versão dele próprio – no papel do protagonista, o célebre intelectual que, como o título já adianta, é capturado. Mas esta é só a premissa, há muito mais do que se pode prever.

Construído de forma bastante documental, aos poucos somos introduzidos à rotina diária de Houellbecq. A ida à feira, a conversa com os vizinhos, as reformas no apartamento onde vive, os encontros com os amigos, as paradas nas ruas por fãs que apreciam sua obra. Quando o ambiente está estabelecido, três homens o invadem para levar o autor embora. A questão é que Mathieu (Mathieu Nicourt), o cigano, Max (Maxime Lefrançois), o fisiculturista, e Luc (Luc Schwarz), o desocupado, não tem a menor noção do que estão fazendo – ou o diretor não possui interesse algum em dividi-la com o espectador. Uma vez de posse do escritor, o carregam até a casa dos pais de um deles, em uma região afastada da cidade. Lá lhe oferecem o melhor quarto, atendem seus pedidos – como a vinda de uma garota de programa em certa noite – e o colocam em convívio direto com todos que ali frequentam – os proprietários idosos, o imigrante polonês que ajuda nos serviços gerais e mora em um container no fundo do quintal, o médico que é chamado numa emergência. Como se nada demais estivesse acontecendo. Porém, é justamente o contrário. Pois a todo tempo se conversa. E entre pedidos não atendidos pela posse de um isqueiro – o vício pelo fumo – e discussões sobre o futuro da esquerda na sociedade capitalista, as diferenças entre eles vão ficando cada vez menores.

É muito fácil considerar os três sequestradores como seres obtusos. Em certos momentos eles próprios se afirmam como tal: “simplesmente não entendo o que ele diz, não consigo conversar com ele”. Mas quem domina a verdade e a razão no cenário aqui proposto? É difícil afirmar com precisão. O jogo entre cada um dos personagens é muito bem amarrado, e Houellbecq, como exemplo máximo de inteligência e refinamento, se sai particularmente bem ao não se levar muito a sério e saber rir de si mesmo – ou se deixar rir, dependendo do ponto de vista. Qual o motivo do sequestro, quem está por trás deste relacionamento forçado, e até que ponto a invocação de uma síndrome de Estocolmo tem mesmo lugar são mais dúvidas do que afirmações, elementos aproveitados para estimular o confronto de ideias, ao invés de uma óbvia entrega expositiva. E, assim, o realizador faz de um filme aparentemente simples uma obra de força incomum, que captura pelo inusitado e prende a atenção pela genialidade quase discreta que domina sua narrativa.

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