Crítica

O Liberdade, de Cíntia Langie e Rafael Andreazza, é um documentário sobre o bar Liberdade, de Pelotas (RS). O interessante do lugar é que, durante o dia, o atendimento é para trabalhadores e colonos da região, enquanto que, nas sextas e nos sábados à noite, é um reduto de músicos de chorinho. O filme registra com sensibilidade a dedicação dos músicos que se apresentam no local. Entre eles, o cavaquinista Joaquim Assumpção Avendano Júnior, conhecido simplesmente como Avendano. Um dos destaques é apresentar ter imagens raras deste músico, que aprendeu a tocar cavaquinho praticando solitariamente por 5 anos e ouvindo os discos de Waldyr Azevedo, com quem depois tocou inúmeras cartas. Avendano se reuniu a outros amantes do chorinho para formar o grupo que encantava a boemia do Liberdade, mas veio a falecer em junho de 2012, de maneira que esse longa se tornou, portanto, um tributo ao instrumentista.

O Liberdade é o primeiro longa-metragem de Cíntia Langie (também professora da UFPel) e se propõe a fazer um trabalho de resgate histórico deste grupo de Pelotas. No entanto, consegue mais do que isto: capta a atmosfera musical do lugar. Além de um ótimo trabalho de pesquisa, a produção também tem como ponto forte a sua montagem, igualmente assinada por Cíntia. Ela consegue imprimir dinamismo à narrativa, afastando-a do gênero de documentários mais tradicionais e, inevitavelmente, enfadonhos. Esse ritmo diferenciado se pode ver, entre outras coisas, quando o som das entrevistas com determinado músico corre enquanto imagens em diferentes pontos da cidade surgem perante os olhos, em locações importantes de Pelotas, como o Theatro Guarany, ou no clube comercial, quando dançarinos entram em cena. Foi uma boa escolha, visto que se os músicos falassem sempre no mesmo lugar, no caso, no bar, o resultado poderia ter ficado cansativo.

O som captado diretamente por Lauro Maia e Davi Mesquita e finalizado por Maia também é de excelente qualidade e deve dar origem a um CD. A co-diretora comenta que uma de suas inspirações foi Buena Vista Social Club (1999), de Wim Wenders, sobre um grupo musical cubano. O Liberdade também conta com uma participação do consagrado Vitor Ramil, que aparece cantando no próprio bar, além do violonista Yamandu Costa, este dando um depoimento e tocando um chorinho. A diretora conta que a escolha de Yamandu foi uma estratégia para dar legitimidade à qualidade dos integrantes do grupo pelotense. "Foi nossa solução para que não ficasse apenas um filme apenas com músicos pelotenses falando", explica Cíntia.

O Liberdade, que recebeu o prêmio de Melhor Documentário do Mercosul pelo Júri Oficial no 16º Festival Audiovisual do Mercosul (Florianópolis/Brasil), é, portanto, uma boa surpresa. Traz boa música e personagens simples, mas extremamente simpáticos e carismáticos. É um filme que faz com que se preste atenção no nome de Cíntia Langie para seus próximos trabalhos.

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é Mestre em Comunicação Social pela PUCRS, com ênfase nos Estudos Culturais. Formada em Publicidade e Propaganda e em Jornalismo pela UFRGS. Trabalha como repórter na área cultural no jornal Correio do Povo, em Porto Alegre.
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