Crítica

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David Bowie foi um dos mais geniais artistas da história da música. Em 1976, ele já havia lançado álbuns obrigatórios como Space Oddity (1969), The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), Aladdin Sane (1973), Diamond Dogs (1974) e Young Americans (1975), mostrando-se não só um músico talentoso, mas incrivelmente camaleônico. A cada novo disco – ou nova fase, Bowie se reinventava, travestia a si mesmo e o seu trabalho em algo diferente. Por isso, não deve ter sido surpresa alguma quando o cantor se aventurou no cinema em O Homem que Caiu na Terra. Afinal de contas, o ofício do ator é viver um novo alguém a cada papel, algo que Bowie já fazia nos palcos desde o início da carreira. E é por sua performance, capturada pelas câmeras do cineasta britânico Nicolas Roeg, que o longa-metragem ganhou o status cult que goza nos últimos 40 anos.

Na trama, baseada no livro de Walter Tevis, Bowie vive o alienígena Thomas Jerome Newton, um ser humanoide que vem à Terra em busca de água para salvar seu planeta natal. Seu plano é juntar o maior montante de dinheiro possível para fazer a viagem de volta e se reencontrar com sua mulher e filhos. Para tanto, contrata os serviços do advogado Oliver Farnsworth (Buck Henry) para que ele assegure patentes de gadgets tecnológicas muito à frente da concorrência – uma câmera que imprime instantaneamente as fotos, uma nova vitrola, entre outros. Com essas novidades no mercado, a empresa de Newton, a World Enterprises, se transforma em uma das principais corporações do mundo, o que traz muito dinheiro ao reservado alien. Em uma viagem ao Novo México, Thomas conhece a doce Mary-Lou (Candy Clark), uma mulher que lhe apresenta alguns dos prazeres da vida humana como o sexo e a bebida. Os dois passam a morar juntos e, mesmo que as atitudes de Thomas sejam bastante excêntricas, Mary-Lou se transforma em uma fiel companheira. Nesse ínterim, o cientista Nathan Bryce (Rip Torn) é convidado a trabalhar para a World Enterprises na concepção de uma nave espacial. O tempo passa e os vícios humanos acabam por cobrar um preço caro na vida de Thomas. Quando seu segredo começa a ser descoberto, ele perceberá que a vida do seu planeta (e a sua) podem estar com os dias contados.

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Exibido no Festival de Berlim em 1976, o longa-metragem de Nicolas Roeg envelheceu bem com o passar do tempo. Sua narrativa pouco óbvia, com grandes elipses e montagens paralelas, mostra um cineasta artisticamente arrojado, que não temia instigar seu público, o desafiando. Produção britânica, O Homem que Caiu na Terra conversa muito bem com os títulos produzidos na chamada “Nova Hollywood”. Sem medo de incluir questões adultas fortes como o sexo, a nudez e o alcoolismo, o longa-metragem de Roeg captura competentemente a ideia do romance original e constrói uma alegoria interessante do homem honesto e puro que sucumbe ao vício. A forma como Thomas decai e a maneira como ele se relaciona com a gente à sua volta o transformam em alguém real. Não importa se estamos falando de um alienígena ou de uma pessoa comum.

Embora fosse um estreante na função, David Bowie traz sua característica persona para o papel, dando peso para aquele alien saudoso de sua terra natal. Ajuda o fato do personagem ser um tanto reservado de início, não necessitando uma variada gama de emoções na primeira metade da história. Embora não saibamos em que ordem foi filmada, é mais lógico que a derrocada do personagem tenha sido capturada por último, com Bowie mais à vontade no papel. De qualquer jeito, o artista se entrega de forma potente ao desfecho da trama, mostrando vulnerabilidade ímpar. Suas cenas com Candy Clark são sempre destaque – principalmente o reencontro entre os dois depois de anos sem se verem. Em contrapartida, Rip Torn é sabotado por um personagem pouco interessante, enquanto Buck Henry é infelizmente subutilizado.

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Para quem curte o gênero ficção científica, mas procura por títulos menos óbvios, O Homem que Caiu na Terra é um exemplar digno de nota, com ótimas performances, história cativante e trilha sonora de primeira – escrita por John Phillips, do The Mamas and the Papas. Poderia ser mais curto, é verdade. Mas isso não chega a ser um problema quando a jornada de Thomas prende nossa atenção, algo que acontece muito cedo no filme.

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Rodrigo de Oliveira

é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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