Crítica

O dia 15 de abril de 2013 entrou para a história como a data do maior ataque terrorista nos Estados Unidos desde 11 de setembro de 2001. Para quem não lembra, foi quando bombas foram acionadas durante a Maratona de Boston, resultando na morte de diversos civis e em uma impressionante caçada do governo norte-americano e do FBI em busca dos responsáveis, nomes estes que foram encontrados menos de uma semana após a tragédia. Um episódio como esse, como não poderia ser diferente, não ficaria muito tempo longe das telas e do campo da ficção hollywoodiana. É curioso, no entanto, que diante deste O Dia do Atentado – cujo título original é Patriots Day, ou seja, Dia do Patriota – há ainda aqueles que declarem se tratar de apenas “mais uma patriotada americana”. Bom, isso é claro, afinal está explícito até no batismo original. A questão, no entanto, é muito pior e mais ampla.

O que vemos neste O Dia do Atentado é, sem tirar nem por, o mesmo discurso que terminou por conduzir um aventureiro fanfarrão como Donald Trump à Casa Branca. “Vamos fazer a América grande outra vez”, correto? Pois então, que melhor forma de deixar isso bastante claro do que através da boa e velha justiça com as próprias mãos, bem ao gosto dos cowboys desbravadores e dos índios impiedosos. O que os antigos faroestes não contavam, no entanto, é que eram estes últimos os verdadeiros donos daquela terra, enquanto que o invasor, o inimigo, era o mocinho de olhos azuis. O cenário, portanto, é basicamente o mesmo, ainda que séculos tenham se passado. Continuamos tendo o homem branco, hétero, cis, temente à Deus e de meia idade como se fosse o único correto, enquanto que qualquer um que fuja dessa ‘normalidade’ é visto quase que imediatamente como inimigo. Ok, temos um asiático em cena como vítima neste infeliz episódio, os mais atentos irão alegar. Da mesma forma que os vilões, mais uma vez, são os muçulmanos. A exceção de um apenas confirma a regra do outro.

Pode-se afirmar que tal disposição se dá de tal forma por uma questão de registro histórico – foi assim que aconteceu na realidade, certo? Bom, pra começar, não temos aqui um documentário, mas, como já foi dito antes, uma obra ficcional. O policial manco interpretado por Mark Wahlberg está longe de ser vagamente semelhante ao oficial Tommy Saunders – até porque este personagem nunca existiu de fato, ele é apenas a composição de vários outros, elaborado para compor um ‘herói’ com o qual o público médio possa se identificar. Então, se partimos da fantasia, por que não moldá-la de um modo mais equilibrado ou, ao menos, coerente? Talvez o espectador não esteja pronto para tanta verdade – ainda que essa, assim como quase todo o resto, não passa de uma mentira muito bem contada.

Dois irmãos fanáticos religiosos causaram todo esse estrago. Isso é fato, e não há como discutir. O filme escrito e dirigido por Peter Berg – um ator medíocre que tem tido mais sorte como cineasta desde que se associou à Wahlberg em produções nacionalistas como O Grande Herói (2013) e Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (2016) – assume, desde o primeiro instante, ter como foco as pessoas envolvidas no evento. Ignora-se, portanto, o todo, para focar apenas no indivíduo. Roteirizado de forma coral, parte do policial com problemas em casa e no trabalho para os terroristas tomando café da manhã com a mesma desenvoltura que passa pelo delegado que compra muffins para a esposa, o nerd chinês que está lutando por uma vida melhor na América (não deveria ser o contrário?) e o casal apaixonado curtindo um dia de folga. Todas essas histórias irão se cruzar, mais cedo ou mais tarde. E se o que irá acontecer com cada um deles o filme se encarrega de narrar, o que dizer deles antes deste momento? Quem são, de onde vem e, principalmente, o que os motivou a cometer tais atos? Seria tudo que aqui é visto realmente tão gratuito?

Apontado pelo National Board of Review como um dos dez melhores filmes de 2016, O Dia do Atentado levou quase cinco meses para chegar às telas brasileiras, e é de se perguntar por que, após tanta espera, tal lançamento não foi simplesmente cancelado. Afinal, este é um filme de e para americanos, uma nação viciada no “eu”, cuja única preocupação é consigo. O protagonista está em estado de choque após o incidente, e tudo o que consegue dizer para a esposa é “não me culpe por tê-la chamado”. Ele não está preocupado com ela, está, sim, é consigo mesmo. E assim são todos os demais em cena. Cada um querendo defender o seu. Nada, sob hipótese alguma, justifica o que Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev fizeram. Eles calcularam, elaboraram e executaram a morte de inocentes, e para isso não há desculpa. Mas algo os levou até ali. No entanto, Peter Berg, Mark Wahlberg e mais ninguém parece preocupado com isso. A realidade pode ser feia. Mas é impressionante como ela pode ficar ainda mais assustadora quando apenas um lado se sente no direito de contar sua versão, de se fazer ser ouvido, simplesmente apagando o oponente. Ninguém mais fala, não há quem esteja disposto a escutar, a dialogar. Todos querem apenas gritar. Somos uma civilização de surdos, e este filme é seu triste retrato.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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