Crítica

Entre a diversidade temática do documentário, aqueles que tratam sobre o fazer cinema são alguns dos mais interessantes. E no que diz respeito à produção cinematográfica, poucos sets foram tão problemáticos quanto o de Apocalypse Now, o superclássico de Francis Ford Coppola lançado em 1979 após longos oito meses de filmagens principais na Ásia. A mulher do cineasta, Eleanor, registrou boa parte deste período infernal em som, texto e imagens, muitas vezes sem ele saber, transformando o material em Hearts of Darkness - O Apocalipse de um Cineasta (1991) ao lado dos também diretores Fax Bahr e George Hickenlooper.

Inspirado no livro O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, o filme de Coppola relata a missão de um capitão incumbido de matar um coronel renegado que perdeu a razão e isolou-se na selva. O longa deixa de lado o contexto sobre o mercado de marfim no Congo na virada para o século XX, transpondo o enredo sobre a imersão na loucura para a Guerra do Vietnã por volta de 1969.

O cineasta enfrentou dificuldades para realizar sua produção desde o início. Nenhum estúdio quis arriscar um centavo sequer em um filme sobre um militar desertor e maluco perdido na floresta em meio à guerra mais questionável da história norte-americana. Coppola foi obrigado a engavetar o projeto, partindo para as filmagens de O Poderoso Chefão (1972) e O Poderoso Chefão II (1974).

Superpremiado e multimilionário com o sucesso global de seus filmes sobre a máfia, o diretor decidiu criar a produtora American Zoetrope e encarar sozinho os desafios de seu projeto apocalíptico. Por pouco não perdeu tudo, incluindo a própria sanidade.

Contrariando os conselhos de Jorge Lucas, Coppola levou uma grande equipe para as Filipinas, onde rodaria o filme com apoio do governo local. Na verdade, tal apoio traduziu-se em uma espécie de aluguel de território e equipamentos. O cineasta pagava taxas diárias para poder rodar o longa e utilizar helicópteros da Força Aérea filipina, que entre as filmagens deixavam o set para combater rebeldes no sul do país.

No entanto, esse era um dos menores problemas do cineasta. Sets inteiros que haviam sido construídos tiveram que ser remontados após um tufão destruir tudo. Cenas e sequências completas foram reescritas diversas vezes e, ao final das filmagens, Coppola ainda se debatia em busca de um final. Além disso, calor intenso, umidade desconcertante, presença de generais no set, interrupção constante das filmagens e um calendário que só se estendia completavam o quadro torto que vinha sendo pintado.

Coppola jamais poderia prever o crescimento infindável de seu projeto, muito menos o esforço financeiro que o mesmo demandaria. De qualquer forma, sabia que a realização do filme e seu próprio futuro dependiam exclusivamente dele mesmo e de seu poder criativo e administrativo – que aos poucos eram colocados em xeque. Questionado em uma entrevista se desistiria do longa, o cineasta simplesmente responde: "Como posso desistir de mim mesmo?".

Com um orçamento extrapolado em US$ 3 milhões e sabendo que a United Artistis só havia concordado em distribuir o filme se Coppola devolvesse o investimento caso o longa não faturasse US$ 40 milhões, o diretor entra em uma nova espiral de incertezas.

Enfrenta desavenças com Marlon Brando (Coronel Walter E. Kurtz), que ameaça deixar a produção devido aos atrasos nas filmagens – e manter no bolso US$ 1 milhão pago em adiantamento. Quando finalmente decide atuar, o astro mostra-se insolente e desinteressado, irritando o diretor.

Já com Martin Sheen (Capitão Benjamin L. Willard) o problema foi de saúde. Após um período sóbrio, o ator decide beber para realizar uma cena catártica – catarse essa não apenas do personagem em si, mas também do ator e da própria equipe envolvida. Martin não aguentava mais filmar. Durante a sequência, transtornado e estimulado por Coppola, cortou-se acidentalmente com um espelho, extravasando a tensão em frente às câmeras. Como avaliou Eleanor, havia uma “eletricidade” no ar. Para ela, tudo poderia acontecer naquele momento, até mesmo um ataque do ator ao diretor em plena filmagem. Ao final, nenhuma briga ocorreu. Porém, pouco tempo depois, Martin teve um ataque cardíaco no set.

Após 200 dias de filmagens, Francis sabia que tinha um filme ruim em mãos, com roteiro inacabado. Também achava que iria falir. Mesmo assim, manteve-se no controle do projeto para finalizá-lo da forma que fosse possível. Independentemente dos péssimos indicativos, tinha a tímida esperança de realizar uma grande obra.

Apesar da intimidade de Eleanor com seu objeto de documentação, a diretora conseguiu manter independência com relação a Coppola, posicionamento consolidado pelo trabalho conjunto com Fax Bahr e George Hickenlooper. À frente das características dominantes do formato narrativo documental, o trio relata ao público o estressante cotidiano do cineasta, exibindo erros, medos, dificuldades, alegrias e anseios de um homem que transitava entre os arroubos criativos e totalizantes de um cineasta genial e a preocupação financeira genuína de um produtor centralizador.

Apocalypse Now não trata sobre a Guerra do Vietnã exatamente, mas sim sobre uma jornada obscura em direção à essência do próprio ser, um trajeto perigoso em direção ao self em que nunca se sai incólume. Nesse contexto, aborda sim uma aventura de homens rumo ao centro de uma selva desconhecida, um local físico incerto a ser descoberto em um país-arquipélago perdido no Mar da China, mas também simboliza a perda da razão do homem que vagou sozinho dentro de seu lado mais escuro. Neste paralelo, o sujeito embrenhado na mata remete ao ser que se perde dentro do labirinto de sua própria mente, sendo o breu da selva uma imagem simbólica semelhante aos recantos mais escuros da pisque humana.

Como explicou Eleanor em O Apocalipse de um Cineasta, "é estranho ver quem você ama confrontar seus medos mais profundos. Medo de falhar, da morte, de ficar louco. É preciso falhar um pouco, morrer um pouco, perder um pouco da sanidade para emergir do outro lado".

De fato, Coppola sobreviveu a sua descida ao inferno. Apocalypse Now estreou em 19 de agosto de 1979, quase três anos após o início das filmagens. Ganhou três Globos de Ouro, dois Oscars e a Palma de Ouro em Cannes, tendo faturado US$ 150 milhões até o lançamento do documentário, em 1991. Ao mesmo tempo, é o recordista do MovieMistakes.com como o filme com o maior número de erros: 395 no total. Prêmios e números à parte, Coppola mostra que para construir algo podemos de fato falhar, enlouquecer e morrer durante o processo. Ao menos um pouco.

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Danilo Fantinel

é jornalista, doutorando em Comunicação e Informação. Pesquisador de cinema, semiótica da cultura e imaginário antropológico, atuou no Grupo RBS, no Portal Terra e na Editora Abril. É integrante da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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