Crítica

O grande problema dos chamados “filmes de época” é a noção geral que parece sair da cabeça de seus realizadores: vamos fazer uma produção caprichada, reconstituir em detalhes figurinos, cenários e afins e colocar música clássica como trilha. Porém, onde está a história e como vamos conta-la? Este é o principal problema de O Amante da Rainha, candidato dinamarquês a uma vaga de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2013, e que acaba por se tornar apenas mais um exemplar do gênero.

A premissa é interessante: no século XVIII, enquanto vários países tomavam o discurso iluminista como peça-chave de uma reforma, a Dinamarca ainda vivia sob preceitos arcaicos. A nação é comandada por um quase bipolar rei Christian XVII (Mikkel Boe Følsgaard), que se casa com sua prometida Caroline Mathilde (Alicia Vikander), a quem logo passa a ignorar. Isto até a chegada do doutor Johann Struensee (Mads Mikkelsen) que, assim como a rainha, é favorável ao Iluminismo. À medida que o médico vai ficando amigo do rei e fazendo-o mudar suas ideias políticas e sociais, ele também se envolve amorosamente com Caroline. E é nisto que o filme prende toda sua atenção: num caso extraconjugal que causa uma ruptura em uma monarquia, algo que já foi discutido e retratado tantas vezes, sendo a última, talvez, no irregular A Outra (2008).

O diretor Nikolaj Arcel termina por deixar de lado o que seria o melhor do filme: a introdução do Iluminismo na Dinamarca, assunto pouco explorado na filmografia mundial e que poderia ter sido aprofundado. Não quer dizer que o tema seja pouco tocado. Porém, do jeito que está retratado em tela, fica apenas como pano de fundo desta tragédia amorosa. Temos o rei insano, a esposa subjugada, o amante dedicado. A cartilha do melodrama, por mais real que possa ter sido, está ipsis litteris. O lado bom é que o realizador toma todos os cuidados possíveis para que o resultado não se assemelhe a uma novela mexicana de luxo. E, por isto, merece aplausos. O romance é retratado de forma mais realista e sem maneirismos. O que é ressaltado pela bela fotografia e a reconstituição de época impecável.

O elenco também merece um olhar mais cuidadoso: de forma geral, todos estão coesos, mas o trio principal consegue se destacar. A novata Alicia Vikander, de apenas 24 anos, é feliz em exprimir a dor de ser uma mulher de opinião, mas que não consegue ter voz, porém sem deixá-la cair no “vitimismo” da situação. Mads Mikkelsen, mais conhecido como vilão Le Chiffre de 007 – Cassino Royale (2006), também desperta a atenção como o cuidadoso médico, que consegue seduzir sem ser exatamente um sex simbol. Enquanto isso, Mikkel Boe Følsgaard é eficiente em retratar o temperamento difícil do rei sem que o personagem pareça apenas mais um louco no comando da corte, e sim como alguém que age mais pela sua impulsividade do que pela clareza de conceitos.

Porém, além do foco extremamente convencional no romance, outro grande problema do roteiro são os diálogos. A subjetividade de algumas falas fica rasa demais por diversas vezes, mas de forma pretensiosa, como na cena em que rei e rainha nórdicos vão ter sua primeira vez e o “macho alfa” fala para a mulher: “não apague a minha luz”. É uma daquelas sequências em que nada a ser dito parece funcionar muito mais do que soltar palavras de efeito, afinal, o modo como Christian XVII se sente em relação à mulher já está claro em seu olhar e em suas atitudes. E com seu temperamento explosivo, se fosse preciso usar as palavras para descrever estes sentimentos deveria ter sido algo mais cru.

Causa surpresa, então, que um roteiro tão mediano e sem novidades tenha ganho o prêmio da categoria no último Festival de Berlim. A estatueta de melhor ator na mesma premiação tem uma resposta positiva com o ótimo desempenho de Mikkel Boe Følsgaard com o rei insano, mas nada fenomenal. Na verdade, é o legítimo filme “feito para Oscar”: bonito por fora , mas de conteúdo regular. Tem seus méritos, mas vai ser esquecido assim como este pedaço da história, que merecia um olhar mais atento.

 

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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