No Good Men
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Shahrbanoo Sadat
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Kabul Jan
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2026
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Alemanha / Dinamarca / França / Noruega / Afeganistão
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
No Good Men acompanha Naru, a única cinegrafista mulher da TV de Cabul, que passa a desacreditar da existência de “homens bons” no Afeganistão após ser traída pelo marido. Às vésperas da retomada do poder pelo Talibã, o encontro com o repórter experiente Qodrat a leva a confrontar suas certezas e escolhas. Comédia/Romance/Drama.
Crítica
Se os festivais de cinema mais prestigiosos do mundo costumam torcer o nariz para a comédia romântica, considerada uma seara menos respeitável do cinema, a ideia de ter como filme de abertura da 76º Berlinale um romance que joga com os códigos deste gênero, mas que se passa num momento histórico particularmente inóspito – o Afeganistão de 2021, pouco antes da retirada das tropas norte-americanas do país e do retorno do Talibã ao poder – parecia ousada e até promissora. No entanto, transitando por um ambiente que precisa recusar a todo instante o luxo da leveza e da esperança, No Good Men, filme escrito, roteirizado e estrelado pela cineasta afegã Shahrbanoo Sadat, soa perdido. De um lado, temos a denúncia da grave situação da mulher sob o regime extremista islâmico; de outro, um grande conjunto de cenas retiradas de um manual dos maiores clichês da comédia romântica moderna, aqui utilizados sem nenhum frescor.

A trama gira em torno de uma personagem de grande potencial: Naru (Sadat) é a única mulher cinegrafista de uma rede de televisão de Cabul. Cuidando sozinha do filho após a separação não oficial do marido controlador e infiel, ela tenta se equilibrar entre a maternidade (e o medo de que o marido se use das leis machistas do país para lhe tomar a guarda da criança) e o trabalho (ambiente em que tem diversas oportunidades negadas simplesmente por ser mulher). Como toda boa protagonista de rom-com, Naru inicia sua jornada inteiramente descrente do amor. A diferença aqui é que seus motivos para manter essa postura são muito mais intensos do que as razões das mocinhas tradicionais de Hollywood: observando absolutamente todos os relacionamentos amorosos à sua volta, conclui que todos os homens casados que conhece, incluindo seu pai e seus irmãos, são maridos violentos e abusivos, que não respeitam suas esposas e as tratam como meras propriedades. Assim, Nauru nota que não há homens bons à sua volta e se recusa a voltar a buscar um parceiro – e, à diferença do sentimento de esperança que acomete o público quando diante desta mesma recusa num romance convencional, aqui o espectador mais sensato deverá concluir que a protagonista tem sólidas razões para se fechar para o amor em território tão pedregoso. A partir dessa premissa, descortinam-se um sem-número de situações dramáticas redundantes, que parecem apenas destinadas a reforçar de maneira nada orgânica a tese do filme – e quem discorda que é uma grande e (quase) incontornável tragédia nascer mulher no Afeganistão?
Neste duro contexto, Naru é incumbida de acompanhar Qodrat (Anwar Hashimi), um repórter muito respeitado por sua coragem e compromisso com a profissão, em uma difícil entrevista justamente com um líder talibã. O jornalista a princípio duvida das qualificações da cinegrafista, mas aos poucos os dois se aproximam – e se apaixonam de forma atabalhoada e completamente incapaz de gerar qualquer torcida. Nenhuma tentativa de construir uma linha narrativa ao estilo romance de gata e rato pode acomodar um personagem tão francamente antipático quanto Qodrat, um homem vinte anos mais velho que Nauru, casado e pai de três filhos, que passa a negligenciar a esposa e a família por conta de seu encantamento fulminante pela colega de trabalho subordinada a ele, hierarquia da qual ele se aproveita para tentar humilhá-la assim que ela ousa desafiar sua autoridade. O “mocinho” tem uma conduta tão questionável que, quando confessa sua paixão para um de seus mais antigos amigos, esse lhe sugere, em tom jocoso, sequestrar a jovem e engravidá-la para resolver de uma vez o problema.
Para piorar, o enredo lida com temas tão densos – de atentados suicidas a estupros coletivos, passando por espancamentos domésticos – que só um gênio seria capaz de abordá-los numa roupagem suave, com cenas pretensamente cômicas e que apelam para a linguagem do encanto sem nunca conseguir dominá-la. Aos poucos, o que vai imperando é uma sensação geral de mau gosto, para a qual o riso nervoso é a única saída possível – em especial nas cenas em câmera lenta, que tentam criar uma atmosfera de magia em meio à crueza das circunstâncias (a guerra e suas consequências). De fato, chama atenção que um filme que tem por protagonista uma cinegrafista apresente uma fotografia (assinada por uma mulher, a belga Virginie Surdej) tão pouco inspirada, em que imagens reais da invasão talibã são mal mescladas a planos “românticos” que parecem extraídos de um filme natalino de qualidade duvidosa.

À medida que a narrativa avança, o espectador, que deveria se enamorar do casal, passa a temer que Naru ceda aos avanços de Qodrat, que o mal-ajambrado roteiro se esforça inutilmente para delinear como um herói abnegado, um homem de princípios num mundo em ruínas. Oscilando desconfortavelmente entre o cinema-denúncia, o drama humano e o universo redentor do amor romântico tradicional, com telefones que tocam pouco antes de um beijo e fugas repentinas, No Good Men consegue diluir qualquer discurso político-feminista sem realizar o salto acrobático para o enlevo, esse movimento que é a alma de qualquer comédia romântica que se preze.
Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026
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