Nina Roza

Crítica


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Sinopse

Nina Roza acompanha Mihail, que deixou a Bulgária nos anos 1990 após a morte da esposa e criou sozinho a filha, em Montreal, onde se tornou especialista em arte francesa e contemporânea. Anos depois, recebe a missão de autenticar as pinturas de uma menina de oito anos que vive em uma vila búlgara e ganhou notoriedade após suas obras viralizarem na internet. Relutante, ele aceita retornar ao país natal e o encontro com a criança o abala profundamente. Drama.

Crítica

A busca pelo selo de autenticidade nas artes plásticas e a maestria com que alguns falsários conseguem se camuflar, dominando certas técnicas de produção e criando narrativas com um talento que muitas vezes se equipara ao do artista “verdadeiro”, são temas instigantes para o cinema, que já renderam obras de interesse, em especial no espaço do documentário. Títulos como Beltracchi: A Arte da Falsificação (2014) e Made You Look: A True Story About Fake Art (2020) lidam com o assunto através de diferentes vieses, mas Pintora Aos Quatro Anos, de Amir Bar-Lev (2007), que investiga as obras de uma garotinha que se tonara famosa para determinar se ela as realizaria com a ajuda dos pais, se aproxima bastante da premissa do ótimo Nina Roza, dirigido pela canadense Geneviève Dulude-de Celles.

No longa, Mihail (Galin Stoev) é um curador e especialista em arte búlgaro, radicado em Montreal, onde se converteu em Michel, versão afrancesada do seu nome. Michel, em permanente oposição a Mihail, se mostra um homem apartado de suas raízes que, apesar de ter se mudado para o Canadá já adulto, admite que “pensa em francês” (e, enquanto profissional das artes, pode-se argumentar que, ao início de sua jornada, o curador pensa como francês). O protagonista recebe uma tarefa feita sob medida para ele: precisa viajar para Bulgária para autenticar as telas de Nina (interpretada pelas gêmeas Ekaterina e Sofia Stanina), uma menina de oito anos que vive em um pequeno povoado naquele país, onde produz quadros de arte abstrata que vêm chamando a atenção de colecionadores internacionais. A hesitação de Michel a aceitar a proposta tem duas razões: sua preocupação com a filha adulta, Rose/Roza (Michelle Tzontchev), que vem exibindo alguns sinais de depressão, e seu medo de reencontrar a família e voltar a assumir sua identidade búlgara, ou seja, voltar a encontrar Mihail, o homem que ele orgulhosamente deixou para trás.

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Essa premissa, malgrado interessante, parecia uma armadilha para clichês dramáticos e catarses absolutas e reveladoras que soariam, inevitavelmente, esquemáticas. A diretora, no entanto, caminha por este campo minado com a mais absoluta habilidade, revelando uma Bulgária outonal e acolhedora, que resiste ao exotismo com seus tipos humanos orgulhosos de sua origem e cultura (e até da manutenção de uma certa excentricidade diante do olhar estrangeiro). Se o vilarejo de Nina é apresentado como um lugar repleto de artistas, em que “todo mundo pinta”, essa característica pode tanto reforçar a possibilidade da fraude como explicar o talento precoce da menina. De fato, o longa opta, de modo inteligente, por não incorporar um discurso autoritário, debatendo de maneira muito nuançada a tensão entre a arte periférica e o poderoso mercado de arte, que a tudo engole, cuspindo produtos embalados perfeitamente para o consumo das elites culturais dos países dominantes. Nina resiste ao olhar de Mihail, desafiando aquele que ela logo reconhece como um espião. A jovem pintora, do alto dos seus oito anos, não quer tomar o posto que lhe foi imputado pelo mercado e é ao observar o temperamento íntegro da garotinha que Mihail redescobre a si mesmo e precisa revisitar tudo que abandonou em seu processo de assimilação cultural.

Nina Roza então contrasta duas meninas: a pintora búlgara e a filha de Mihail, que deixou sua terra natal com o pai para não mais retornar. Ao longo da narrativa, a música é utilizada como meio de transporte para o passado de Roza e Mihail e como via de acesso à identidade cultural perdida do personagem central (num dos momentos mais comoventes do filme, trabalha-se o ponto de escuta do protagonista, com uma canção ruidosa de uma festa convertendo-se em sussurros íntimos, uma manifestação auditiva da memória afetiva do curador). No papel central, Galin Stoev é preciso em seus gestos e ações e, ainda assim, consegue transmitir um conflito identitário intenso. Se a autenticidade nas artes plásticas é um conceito moderno que permanece (em alguma esfera) em disputa constante, Nina Roza adentra essa discussão sem respostas prontas, mas propondo as mais cruciais perguntas.

Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026

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é professora, pesquisadora e crítica de cinema (filiada à Abraccine). Formada em Cinema pela UFF e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, com pesquisa sobre as inter-relações entre o cinema e a literatura. É autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth — a exigência da morte" (Editora Verve, 2015). Faz parte do conselho editorial do site Críticos. Fundou, ao lado de Carolina Amaral e Marcel Vieira, o seminário temático Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual na Socine e atualmente trabalha como especialista em conteúdo audiovisual.
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