Crítica

Paulo Gustavo é um dos maiores fenômenos surgidos no cenário cultural brasileiro nos últimos anos. Mesmo sem colocar o rosto na maior janela de audiência nacional – a Rede Globo – ele já conquistou milhares de fãs e admiradores seja na tv fechada (com seus programas do canal Multishow), no teatro e, é claro, também no cinema. Depois de uma pequena – porém marcante – participação como o cabeleireiro (aquele do “repica, repica”) de Lilia Cabral em Divã (2009), ele saltou direto para o estrelato de Minha Mãe é uma Peça (2013), inspirada em um dos seus espetáculos teatrais, e Vai Que Cola (2015), calcado no seu maior sucesso televisivo. É por isso que não chega a ser uma grande surpresa essa Minha Mãe é uma Peça 2, que chega às telas três anos depois do primeiro longa. O que chama atenção, no entanto, é que mesmo sem uma trama original para apresentar – em resumo, é apenas ‘mais do mesmo’ já visto antes – o talento do astro é tanto que ele não só prende a atenção do espectador, como segura o riso alto (seu maior objetivo, é claro) do início ao fim.

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Dona Hermínia, a protagonista de Minha Mãe é uma Peça, não apenas é interpretada pelo próprio Paulo Gustavo, como foi concebida tendo como inspiração a mãe real dele, de mesmo nome. E com uma figura materna como essa, dá pra entender de onde ele busca suas ideias. Ela é daquelas mãezonas desesperadas, preocupadas, gritonas, sempre interessadas em tudo que está acontecendo com os filhos e demais familiares (entre esses está até Carlos Alberto, o ex-marido, novamente vivido por Herson Capri). E é justamente nesses personagens que a trama do novo filme se centra. O filho caçula (Rodrigo Pandolfo), que antes havia assumido sua homossexualidade, agora se descobre bissexual. A filha (Mariana Xavier) deixa a preguiça de lado e decide investir na carreira de atriz, mudando-se, no processo, para São Paulo, onde irá trabalhar em uma companhia teatral. Uma irmã que mora nos Estados Unidos (Patricya Travassos) decide retornar para uma visita, enquanto que a tia idosa (Sueli Franco) dá seu último adeus.

Como se percebe, são todas preocupações do cotidiano de qualquer dona de casa e mãe de família. A saída dos filhos de casa, a partida dos parentes mais velhos, as relações familiares entre irmãos, tios e agregados. Segue incomodando, no entanto, a aparente assexualidade de Dona Hermínia, que apesar de já ter sido casada, parece não ter mais nenhum tipo de interesse nessa área – em uma sequência numa festa, as duas irmãs dela – além de Travassos, há ainda a interpretada por Alexandra Richter – disputam um mesmo possível namorado, enquanto que Hermínia faz que o assunto não é com ela. Nem mesmo um possível flerte com o ex-marido é levado adiante. Paulo Gustavo faz humor ácido dentro do universo que domina – seus familiares, homossexuais e artistas – mas está longe de demonstrar disposição para se arriscar por terrenos mais potencialmente polêmicos, como sexo e preconceito social (outro tópico tocado apenas de modo breve, nas passagens com o zelador do prédio).

Há também outros tropeços que chamam atenção, como a total ausência do filho mais velho (citado apenas pela presença de um neto – filho dele – no começo e pela inserção dele, quase que aleatória, já próximo ao final) e a inserção de uma nova rival como interesse amoroso do ex-marido (havia boatos de que Luana Piovani seria a atual namorada, assim como Ingrid Guimarães foi no longa anterior, mas, no entanto, estes não foram confirmados). Nada, no entanto, que se compare com o desinteresse que a situação profissional de Dona Hermínia – que no final do primeiro filme havia ganho seu próprio programa de televisão – desperta no enredo, usada apenas como elemento visual para uma ou outra piada pouco inspirada. Ou seja, como se percebe, havia material a ser explorado. Bastava apenas uma dedicação maior para não apenas citar, mas também se aprofundar.

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Mesmo assim, é curioso como Minha Mãe é uma Peça 2 se revela um produto melhor e mais bem acabado do que o episódio original. Isso se deve, em grande parte, a Paulo Gustavo, é claro, que assume uma maior naturalidade com o meio cinematográfico, circulando por paisagens e situações que vão além do mero mote teatral que guiava a trama anterior. Com o mesmo ritmo de diálogos rápidos que lhe é tão característico, ele consegue entregar ao seu público uma comédia eficiente, que conta em grande parte com o carisma do protagonista, mas sem desprezar seus coadjuvantes. É o resultado de um todo, que envolve e movimenta, mostrando que o gênero, tão mau tratado no Brasil, pode aspirar por um futuro mais auspicioso. Precisa, ainda, aparar melhor as arestas – o final é abrupto e quase desrespeitoso com o espectador, indicando uma intenção caça-níquel em torno de uma terceira parte – e mostrar que, mais do que personagens cativantes e um humor ligeiro, sabe-se também elaborar histórias com início, meio e fim. Um novo passo nessa direção já foi dado – que venham os próximos!

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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