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Sinopse
Meu Tio da Câmera acompanha 30 anos de filmagens realizadas por Paulo Henriques de sua família em Vitória, uma família capixaba de classe média crescendo no Brasil dos anos 90 e 2000. Na intimidade de sua câmera, é esboçado um panorama político do Brasil a partir da afetividade familiar masculina. Documentário.
Crítica
Desde que o streaming transformou o documentário em produto recorrente, tornou-se quase automático o despejo semanal de séries e filmes baseados em arquivos, majoritariamente oriundos dos Estados Unidos. Lá, onde o cinema sempre se identificou com a lógica industrial, o registro doméstico foi naturalizado como extensão da cultura audiovisual, a ponto de qualquer reunião de família parecer material em potencial para um longa. No Brasil, essa prática demorou mais a se consolidar, em parte pelo acesso restrito a equipamentos até a popularização dos smartphones. Meu Tio da Câmera nasce justamente dessa exceção: Paulo Henriques, morador de Vitória, registrou de forma contínua sua família entre os anos 1990 e 2020. O volume e a constância dessas imagens já seriam, por si só, um achado, mas o olhar do diretor Bernard Lessa encontra nelas algo maior ao conectá-las às transformações do pensamento coletivo brasileiro.

É nesse cotidiano aparentemente banal que o filme encontra sua força. A família atravessa os rituais que estruturam a memória afetiva de tantos brasileiros: Natais marcados pela fartura, réveillons barulhentos, aniversários infantis cheios de doces, Copas do Mundo e Olimpíadas celebradas em coro com vizinhos e amigos. A montagem, assinada por Lessa e Natália Dornelas, transforma essa sucessão de eventos em experiência de reconhecimento imediato, criando elo direto entre a intimidade registrada e a memória do espectador. O carisma dos personagens, especialmente das crianças, reforça essa sensação de acolhimento, tornando o longa doce, quase confortável.
As imagens, de fato, falam muito por si, mas o maior trunfo do documentário está na decisão de tensionar a sensibilidade que ele próprio constrói. O acúmulo de cenas felizes, de afeto e convivência harmoniosa, cria espécie de letargia emocional, como se aquele universo estivesse protegido de qualquer fissura. É justamente nesse terreno que o projeto introduz sua inflexão mais incômoda, revelando como discursos simplificados e ideologias vazias podem se infiltrar até mesmo nos ambientes mais amorosos. A transformação é gradual, quase silenciosa, e obriga o espectador a rever o vínculo afetivo que havia estabelecido com aquelas mesmas imagens, agora atravessadas por um novo sentido.

Ao provocar esse deslocamento, Bernard Lessa assume o risco de frustrar expectativas, mas é nesse gesto que Meu Tio da Câmera encontra sua razão de ser. A aposta se recusa a preservar a nostalgia como zona de conforto e opta por expor as contradições que atravessam qualquer núcleo social. Ao fazê-lo, sugere que a proximidade emocional não imuniza ninguém contra discursos sedutores e divisivos. Nos gestos mais simples, nas convenções mais banais, reconhecemos a nós mesmos, com todas as nossas afinidades e fragilidades. Talvez seja justamente aí que o documentário mais incomode: ao lembrar que somos muito mais parecidos do que gostaríamos de admitir – inclusive na facilidade com que podemos nos deixar capturar por narrativas que prometem pertencimento, mas cultivam a ruptura.
Filme visto na Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.
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