Crítica

A canção que abre e fecha Marginal, de Alex Miranda, contém todo o paradoxo constitutivo da maior cidade do país. Não Existe Amor em SP, do cantor e compositor Criolo, fala de uma metrópole indelicada, mas que parece um buquê, símbolo maior dos presentes trocados entre os apaixonados. A ideia do documentário, coproduzido pelo canal de notícias Globo News, é apresentar os múltiplos significados de dois dos lugares mais conhecidos e movimentados da capital paulista, as marginais Tietê e Pinheiros.

O primeiro impacto causado por Marginal no espectador é a lembrança de que o nome 'marginal' vem da localização às margens dos rios, nos quase 40 quilômetros de asfalto. Se a palavra também permite nominar os que se encontram excluídos da sociedade, o filme ganha um olhar extra: para entender as marginais, é preciso conhecer quem as vive, circula, estuda e exalta. Personagens é o que não faltam, a começar pelas famílias de capivaras que vivem no local, um suspiro de natureza em meio à selva de pedra. Marginal funciona como reportagem e também como cinema, buscando suas fontes no jornalismo literário, que pretende ver o retrato da realidade sem deixar a poesia de lado. E a poesia do filme é como a de Paulo Leminski, crua, bela e realista.

Os mesmo rios que um dia acolheram clubes de regatas compostos de garotas da classe alta paulistana, também foi o lar de times de futebol amadores que resistem até hoje, fazendo a bola rolar sob o fétido aroma exalado pelas águas que, um dia, foram o lugar de lazer e esporte de São Paulo. O grande trunfo de Marginal é não se prender em ouvir especialistas sobre as possibilidades de despoluição dos rios ou de uma melhoria na arquitetura das marginais. A câmera está preocupada com o fator humano, as múltiplas formas de vida que circulam nesses locais, sempre buscando o que há de belo em cada um deles. É interessante ver as opiniões diversas do caminhoneiro que dirige com medo da violência vir na sequência do depoimento esfuziante do roqueiro que faz do lugar o seu parque de passeio, do “rolê” relaxante da semana. Ou do empresário que exalta a beleza das pontes e dos prédios espelhados, para em seguida ouvir o relato do revoltado professor de arquitetura, que afirma serem as marginais a coisa mais feia da cidade.

Marginal não se preocupa com filtros. Mostra São Paulo como ela é, com carros apressados e ciclistas concentrados vivendo no mesmo ambiente, talvez sem nem perceberem um a presença do outro. As águas do rio são o destino de garrafas pet e até de bebês, conforme o relato emocionado de um funcionário do EMAE (Empresa Metropolitana de Águas e Energia) que, durante o expediente, encontrou um corpo boiando. As mazelas e a arte, todos na mesma margem. Grafite e lixo correndo na mesma direção. Marginal é mais que a história de um dos marcos do progresso no Brasil. A cidade vai para frente sem deixar de sentir as marcas do passado. E por mais que as acusações sejam muitas e contenham os mais diversos nomes, o responsável pela agonia do Tietê e do Pinheiro é um só: o homem ganancioso.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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