Mãos à Obra

Crítica


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Sinopse

Em Mãos à Obra, um fotógrafo de sucesso abandona tudo para se dedicar à escrita e descobre a pobreza. Aos poucos, compreende que ser artista não se resume apenas à obra final que se produz: é também uma postura de oposição ao mundo. Drama/Biografia.

Crítica

Mãos à Obra se apresenta como mais um retrato sensível de um mundo atravessado pela transição trabalhista e pela crescente precarização das relações profissionais. O filme poderia facilmente se acomodar no drama social direto, acompanhando protagonista afogado em novas formas de trabalho que prometem autonomia enquanto impõem exaustão. Mas Valérie Donzelli prefere ir além. A diretora observa, com a precisão emocional que marca sua filmografia, como a dureza das estruturas contemporâneas molda – e por vezes esmaga – o desejo de sonhar. É desse atrito entre rotina e vocação que nasce um retrato honesto, quase íntimo, de um tempo em que criar parece exigir mais do que talento: exige resistência.

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É nesse cenário que conhecemos Paul Marquet, homem de feições discretas e delicadeza no olhar. Ele enxerga beleza onde poucos encontram algo digno de nota, característica que o define como artista – embora a vida não lhe permita viver dessa identidade. Paul escreveu três livros; o primeiro o incentivou a largar carreira promissora como fotógrafo publicitário, mas os dois seguintes passaram despercebidos. Enquanto tenta concluir o quarto romance, enfrenta bloqueio que paralisa tanto a criação quanto a autoestima. Sem renda estável, ele se registra no aplicativo Jobbing, tornando-se um “faz-tudo” para sustentar o mínimo necessário. As manhãs dedicadas à escrita e as tardes aos consertos criam rotina fragmentada que espelha sua própria sensação de desordem.

Donzelli costura essas tensões para formular perguntas que atravessam qualquer pessoa que se reconheça artista em tempos de pragmatismo absoluto: o valor da arte depende de sua remuneração? A beleza tem serventia num mundo que exige produtividade acima de qualquer coisa? E o que resta a alguém que produz algo profundo, mas incapaz de garantir estabilidade financeira? São questões grandes, mas Donzelli as administra com habilidade, permitindo que convivam com a realidade prática de um homem que precisa sobreviver enquanto tenta criar. Ao mesmo tempo, a diretora sugere que tecnologia, algoritmos e velocidade transformaram não apenas o trabalho, mas também a maneira como compreendemos o próprio ato de existir.

É aqui que Bastien Bouillon emerge como o elemento mais poderoso do filme. O ator interpreta Paul com mistura de vulnerabilidade e obstinação que nunca escorrega para o sentimentalismo. Ele carrega no corpo o peso dos trabalhos braçais para os quais não foi treinado e, na expressão, a angústia de ter abandonado a estabilidade em nome de algo que os outros não entendem. Como explicar aos filhos, ao pai, à ex-mulher, que escolheu viver no limite financeiro para não abrir mão de sua voz interior? O desempenho de Bouillon transforma o drama de Paul em algo palpável: ele é alguém tentando preservar sua identidade num mundo que insiste em transformá-lo em número, tarefa ou função.

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Esse embate entre o mundo real e o mundo sonhado torna Paul personagem cuja jornada desperta empatia imediata. Mesmo que suas escolhas pareçam, por vezes, irracionais, a forma como a narrativa expõe suas motivações nos aproxima dele. Cada trabalho aceito, cada pequena vitória, cada humilhação absorvida revela não apenas a precariedade que o cerca, mas também a dignidade silenciosa com que enfrenta a própria vida. Donzelli, ao acompanhar essa travessia com atenção sincera, nos lembra de que sonhar continua sendo um gesto profundamente humano – e que, apesar das estatísticas e dos algoritmos, ainda há espaço para quem insiste em viver aquilo que o move. E se Mãos à Obra não resolve todas as inquietações que propõe, entrega algo mais raro: a sensação de que acompanhar Paul é, de alguma forma, revisitar partes de nossas próprias dúvidas e insistências. 

Filme visto durante o Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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