Josephine

Crítica


9

Leitores


1 voto 8

Onde Assistir

Sinopse

Em Josephine, uma menina presencia, ao lado do pai, a agressão de uma corredora por um desconhecido. Sem receber explicações claras sobre o que viu, ela busca respostas por conta própria e passa a enxergar o mundo como um lugar ameaçador. Enquanto o pai tenta reagir de forma prática, matriculando-a em aulas de defesa pessoal, ignora o impacto emocional do trauma. Drama/Suspense. 

Crítica

As primeiras imagens de Josephine são um conjunto de planos com o ponto de vista da protagonista, menina de oito anos que dá nome ao filme. Nessa sequência inicial, vemos o mundo pela perspectiva da garotinha enquanto ela tenta vencer um pequeno desafio que lhe é proposto pelo pai. Esse trecho de certa forma apresenta o coração pulsante do filme, que vai se propor a desvelar a perspectiva da menina diante de um acontecimento traumático, cuja dimensão ainda não tem ferramentas para compreender. A premissa parece um convite para uma trama policialesca de qualidade duvidosa: acompanhando o pai ao parque para um exercício matinal, Josephine decide pregar-lhe uma peça e se esconde, enquanto Damien (Channing Tatum), em crescente preocupação, se põe a procurar a filha. Camuflada por entre a vegetação, a garotinha acaba por testemunhar um violentíssimo estupro. Confusa com o que vê, assiste a tudo sem saber como reagir, perplexa, até que Damien chega, precipitando a fuga do criminoso e conseguindo buscar ajuda.

20260220 josephine 2026 papo de cinema

A escolha de fazer com que o estupro de uma mulher que sairá de cena sirva para impulsionar a jornada de outro personagem é bastante questionável no cinema, tendo gerado narrativas que em geral se fundamentam na canhestra busca pela empatia com o sofrimento de um homem que não conseguiu impedir a violência contra uma mulher, que, ela mesma, não tem qualquer espaço na trama – esse tropo é utilizado à exaustão no cinema e está presente de Gladiador (2000) a Animais Noturnos (2016), com O Segredo dos Seus Olhos (2009) sendo uma honrosa exceção de boa construção dramatúrgica em torno desse mesmo lugar-comum. No entanto, em Josephine a diretora Beth de Araújo caminha com segurança por esse campo minado, construindo a protagonista como uma outra vítima real daquela violência – a realizadora se inspirou num episódio verídico de sua infância, quando ela e seu pai de fato interromperam um ataque a uma mulher num parque, acontecimento que a marcou.

Testemunhando a brutalidade gratuita de um homem contra uma mulher, a garotinha, que até então levava uma vida protegida e estável ao lado dos pais, tem seu primeiro (e dolorosíssimo) contato com os perigos inerentes à condição feminina. Essa dura tomada de consciência vai sendo explorada aos poucos ao longo do desenvolvimento, pelos mais diferentes vieses, e se inicia com uma poderosa troca de olhares entre a protagonista e Sandra (Syra McCarthy), a mulher atacada, que nota a presença da menina antes do estuprador – aqui é interessante apontar que tanto Sandra quanto a personagem central e também sua mãe, Claire (Gemma Chan), são mulheres não brancas e, como tal, alvos ainda mais recorrentes de diversas formas de agressão.

20260219 josephine papo de cinema banner

O ótimo roteiro explora as reações díspares dos pais de Josephine diante do evento chocante, abordando a incapacidade de ambos de responder aos graves questionamentos da menina, que, frustrada, passa a adotar o comportamento errático e agressivo de alguém que responde ao estresse pós-traumático. Neste ponto, exploram-se as diversas posturas do homem e da mulher frente à gravidade da situação. Enquanto Damien quer agir como herói e transformar o medo da filha em sua fortaleza física, inclusive fazendo com que a pequena passe a frequentar aulas de defesa social, Claire tenta acolhê-la, mas sofre ao perceber que a filha deu o primeiro passo em direção à compreensão da realidade da existência feminina, da qual ela gostaria de protegê-la um tanto mais.

Essa distância entre o casal é ressaltada num ótimo diálogo, em que o pai afirma à menina que ela jamais passará por algo semelhante ao que observou, apenas para ser interrompido pela mãe, que, ciente da realidade da mulher, assevera: “Você não pode dizer isso para ela”. Nos papéis do trio central, os atores conseguem dar realidade à dinâmica familiar e Tatum surge naquela que é possivelmente a melhor interpretação de sua carreira, indo da agressividade masculina diante da frustração à fragilidade que o levará até a reconstrução de sua relação com a filha, em novos termos. A escolha de fazer com que o estuprador surja no quarto da menininha de maneira fantasmática, como materialização de sua crescente paranoia e confusão, é acertada, produzindo momentos capazes de transmitir ao espectador o estado mental da personagem central.

20260220 josephine papo de cinema e1771616164735

Os planos ponto de vista de Josephine, claustrofóbicos e desnorteantes, retornarão de maneira muito bem pensada na sequência do tribunal, em que a menina precisa encontrar a coragem para depor e os pais tentam lidar com a exposição pública da vulnerabilidade da criança. Além de roteiro e direção, a fotografia também é assinada por uma mulher, Greta Zozula, o que talvez explique como o filme trata desse espinhoso tema sem se afastar do olhar dessa menina que descobre a crueza do mundo. Com Josephine, obra que venceu o Grande Prêmio do Júri do último Festival de Sundance, Beth de Araújo, filha de pai brasileiro e que tem cidadania no país, constrói um coming of age duríssimo, que deve fazer com que a espectadora se questione o momento exato em que compreendeu, não sem dor, que a existência feminina é pautada pela constante análise de riscos.

Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é professora, pesquisadora e crítica de cinema (filiada à Abraccine). Formada em Cinema pela UFF e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, com pesquisa sobre as inter-relações entre o cinema e a literatura. É autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth — a exigência da morte" (Editora Verve, 2015). Faz parte do conselho editorial do site Críticos. Fundou, ao lado de Carolina Amaral e Marcel Vieira, o seminário temático Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual na Socine e atualmente trabalha como especialista em conteúdo audiovisual.
avatar

Últimos artigos deMaria Caú (Ver Tudo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *