Joe e a Viagem de Carro

Crítica


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Sinopse

Joe e a Viagem de Carro acompanha o irreverente irmão de Madea, que assume a missão de levar o neto B.J até a universidade onde o jovem pretende estudar. Recém-formado no ensino médio, o garoto planejava fazer a visita ao campus com seus amigos, mas a preocupação de seu pai, Brian, com a visão ingênua e desconectada do filho sobre o que significa ser negro nos Estados Unidos muda os planos da viagem. Comédia.

Crítica

Influente figura hollywoodiana, Tyler Perry construiu fama com incontáveis produções estreladas por Madea, a matriarca desbocada, ranzinza e, dentro de sua lógica torta, engraçada – algo nos moldes de Minha Mãe é uma Peça. Ainda que parte significativa desse humor soe reciclada, ancorada mais na força da persona do que na solidez narrativa, é inegável que, vez ou outra, o cineasta encontra novas brechas para explorar esse universo, principalmente quando opta pelo simples. É o caso de Joe e a Viagem de Carro, derivado em que o irmão da célebre figura assume o volante. Politicamente incorreto, herdeiro direto de uma tradição oral da negritude estadunidense e interessado em dialogar com diferentes gerações, o filme encontra sua melhor medida quando aceita seu próprio exagero e convida o espectador a fazer o mesmo.

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Nessa nova aventura, Brian (Perry) é um homem que venceu dentro dos padrões convencionais de sucesso: estabilidade financeira, prestígio e a convicção de ter oferecido ao filho, BJ, todas as oportunidades possíveis. Às vésperas da faculdade, porém, o jovem revela viver numa bolha de privilégios tão hermética que sequer reconhece a persistência do racismo na sociedade atual. A situação, aliás, faz lembrar uma das melhores passagens de Um Maluco no Pedaço (1990-1996), quando o pequeno Carlton Banks diz ao pai, Philip, que deseja ser presidente dos Estados Unidos quando crescer, recebendo como resposta orgulhosa que poderá ser “o primeiro presidente negro dos EUA” – ao que reage, genuinamente confuso: “o quê? Eu sou negro?”. O humor da cena revela como o conforto pode distorcer a consciência de classe. O mesmo, vale recordar, pode ser visto bastante em Todo Mundo Odeia o Chris (2005-2009).

Mas, voltando à trama, o choque, portanto, é inevitável, sobretudo quando Brian se vê refletido em sua própria origem, marcada pela criação sob a tutela de Joe, figura bruta de um tempo que insiste em não desaparecer. Ao enxergar nesse contraste uma oportunidade de aprendizado mútuo, surge a ideia improvável: colocar avô e neto na estrada. O ponto de partida é frágil, quase irresponsável, mas suficiente para que a engrenagem cômica entre em movimento.

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O road movie, então, se estabelece como campo de tensão permanente entre dois mundos. Joe é o oposto de tudo o que o neto conhece: ex-dono de prostíbulo, homem de gatilho fácil, alcoólatra funcional e dono de uma língua incapaz de se autocensurar. Cada frase sua carrega o peso de existência moldada na marginalidade. O espanto do garoto é também o do espectador (mas, é claro, com risadas): como conciliar afeto com alguém que parece carregar tantas falhas? Perry, no entanto, é cuidadoso ao posicioná-lo não como caricatura isolada, mas como produto de uma sociedade que sistematicamente lhe negou alternativas.

Esse equilíbrio é o que impede o filme de escorregar completamente para a provocação vazia. Há, sim, piadas escabrosas e momentos em que o limite do aceitável é tensionado ao máximo. Não será absurdo que parte do público enxergue oportunismo nesse gesto. Ainda assim, existe uma camada mais sensível na forma como Brian se coloca entre passado e futuro: orgulhoso do filho que habita um mundo mais inclusivo, mas incapaz de renegar o homem que o formou. Perry resiste à tentação do melodrama e preserva o território da comédia, consciente de que o riso, aqui, é também mecanismo de sobrevivência.

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Joe e a Viagem de Carro dificilmente será mal interpretado por quem compreende o lugar de onde fala. Não é o riso que ridiculariza, mas aquele que reconhece contradições profundas – algo que Dave Chappelle certa vez definiu como a “diferença entre rir do negro e rir com ele”. O que emerge é um humor desconfortável, atravessado por cicatrizes que ainda não se fecharam. Talvez o tempo traga leveza a essas memórias. Por ora, Perry parece mais interessado em garantir que elas permaneçam visíveis. E há, nisso, uma honestidade difícil de ignorar.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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