Crítica

O clima é tenso nos bastidores do Teatro da Estrela na véspera da estreia de uma nova peça. Reclamações de funcionários que ameaçam cruzar os braços se não receberem os salários, falta de comunicação com o encenador japonês, corre-corre atrás dos últimos detalhes, isso tudo praticamente recai sobre Nawel (Audrey Tautou), assistente que vai de um lado para outro a fim de dar conta das responsabilidades. Enquanto isso, seu patrão, o diretor do estabelecimento, Luigi (Edouard Baer), está se atracando com uma desconhecida, alheio à ebulição que a câmera tão bem captura. Imprevistos de Uma Noite em Paris é uma comédia leve e divertida, que parte do acúmulo de problemas sem aparente solução emergencial para relativizar o peso que se dá às adversidades, enquanto a vida pulsa nas pequenas possibilidades. Mas, longe de qualquer aspiração à profundidade ou mesmo à transmissão de mensagens, o filme sabiamente é guiado por uma senda descompromissada.

Uma vez assumindo o posto que lhe é de direito, o de protagonista, Luigi centraliza praticamente todas as ações do longa-metragem. Melhor dizendo, ao redor dele ocorre o importante. Driblando contratempos, ele sai para a rua em busca de uma resolução financeira que viabilize o contentamento geral. Leva a tiracolo a estagiária do bar do teatro, a jovem Faeza (Sabrina Ouazani), que protesta constantemente contra as horas extras imprevistas, uma vez que tem um filho ainda bebê em casa para cuidar. Mas se ela evidentemente não consegue sair do lado de Luigi é por causa de seu atributo mais sobressalente, o carisma. Aliás, todas as demais pessoas, por mais objeções que tenham aos comportamentos nem sempre compreensíveis, permanecem exatamente pelo fato de ele ser um sujeito com personalidade magnética, com quem é difícil manter-se por muito tempo brigado. Seus absurdos e erros adquirem caráteres plausíveis e perdoáveis.

Também diretor do filme, Edouard Baer sabe como construir cinematograficamente personagens com quem facilmente criamos empatia. Adere-se de pronto à graça desprendida de cada parada não programada que alonga a distância entre Luigi e a residência da benfeitora milionária que pode salvar o espetáculo e, especialmente, as relações que parecem quebradiças. A mais nonsense delas é a da conversa com o dono de uma macaca famosa pretendida para figurar no palco. As maneiras totalmente insensatas de o protagonista resolver (ou não) os impasses são reprovadas por Faeza, coadjuvante que existe basicamente para dividir conosco a admiração crescente por Luigi, sentimento que substitui imediatamente a estupefação. Seus contatos com os demais membros da trupe, então indignados, ajudam a delinear com mais camadas esse homem aparentemente desligado das questões alheias. Imprevistos de Uma Noite em Paris extrai vigor e capacidade de atração de sua simplicidade.

Comédia que começa num ritmo frenético e vai desacelerando enquanto alguns dramas vão ganhando representatividade e robustecendo uma dinâmica fundamentada no carisma de Luigi e na sua habilidade de, a despeito dos prognósticos, resolver os contratempos. Assim se pode definir este filme, no qual o charme, trabalhado em cena como valor imprescindível, se sobrepõe às eventuais facilidades e convenções. Imprevistos de Uma Noite em Paris possui um desprendimento cativante. Obviamente torcemos para que tudo dê certo após a agitação madrugada adentro. As notas agridoces, perceptíveis a partir do momento em que nem a simpatia de Luigi dá conta do emaranhado de contingências de ordem relacional, servem para pincelar matizes cinzentos numa tela prioritariamente solar que, assim, ganha ainda mais vida por conta dos leves contrastes. Duplamente bem-sucedido, como diretor e ator principal, Edouard Baer faz um filme essencialmente gostoso de ver.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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