Crítica

Uma das coisas mais divertidas em assistir a projetos que se focam apenas em exercitar um estilo é a liberdade e o descompromisso que costumam permeá-los. Não obstante, esses filmes geralmente são esquecíveis, sem nada que sustente a sua lembrança além da experiência momentânea que proporcionaram a sua audiência. E não há nada de errado com isso, pois até mesmo reconhecidos cineastas já se dedicaram a um simples entretenimento para brincar com seus gêneros e subgêneros favoritos – vide À Prova de Morte (2007), de Quentin Tarantino, por exemplo. E é bem isso que esse Hoje à Noite Ela Virá é: um exercício de estilo completamente despreocupado em se levar a sério.

Seguindo uma vibe A Morte do Demônio (1981) – tanto o original quanto o remake – o longa acompanha um grupo de jovens que acaba preso em uma cabana no meio do nada. Do lado de fora está uma garota possuída por uma entidade infernal, enquanto que lá dentro os sobreviventes tentam encontrar um modo de desfazer a possessão antes que a criatura consiga entrar. E é claro que nada disso vai se dar sem uma boa dose de nudez, sexo e muita nojeira envolvendo sangue e demais fluídos corporais.

A começar pela “vilã” do filme, que surge já completamente nua e coberta de sangue desde sua primeira aparição, deixando os volumosos seios e todo o resto de fora sem pudores. Afinal, estamos falando de um filme escrito e dirigido por um “cara”, Matt Stuertz. Que ainda assim, não deixa de alfinetar o resto da plateia masculina e heterossexual durante o clímax, quando uma (falta de) ação covarde de James (Nathan Eswine) resulta em tragédia. Além disso, o cineasta concede às mulheres o protagonismo das ações, ainda que por estrutura, esse papel devesse ser de James. E é a Felicity de Jenna McDonald quem rouba o filme a partir do segundo que entra em cena, com uma presença ensandecida e magnética.

Entretanto, o humor da narrativa não funciona sempre, o que é decepcionante tendo vista a lista de absurdos a que a trama se entrega com o avançar dos acontecimentos. E não que lhe faltem boas ideias: o projeto, na verdade, carece de timing. Portanto, cabe à inventividade de suas cenas gore levarem o público até o final – além de algumas gags recorrentes, como os letreiros que insistem em informar as horas com dramaticidade e ridícula precisão, apesar de o horário não representar relevância alguma para a trama.

Porém, se piadas bagaceiras, miolos, sangue, muito sangue, menstruação, tampões com muito sangue de menstruação, e afins, não forem exatamente os elementos que te atraem para um filme, talvez Hoje à Noite Ela Virá não se encerre como o seu favorito. Mas tudo bem, ele também não deve ser isso mesmo dentre os fãs do slasher, do trash e do gore, o que não quer dizer que não se trate de um exercício divertido, efêmero e despretensioso desses estilos.

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é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.
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