Crítica

Quatro amigas, jovens adultas entre os 20 e 40 anos, levando suas vidas em uma cidade grande e cosmopolita, tendo que lidar com questões como trabalho, família e relacionamentos amorosos. Todo mundo já ouviu essa história antes, principalmente os fãs de histórias femininas. A principal diferença entre o seriado Sex and the City (1998-2004), que teve seis temporadas e mais dois longas para o cinema, e a comédia nacional Gostosas, Lindas e Sexies, no entanto, está, digamos, na ‘circunferência’ das protagonistas. Se o programa estrelado por Sarah Jessica Parker ditava – e era escravo de – uma moda que assumia como padrão de beleza mulheres magérrimas e esbeltas, o longa de estreia do cineasta Ernani Nunes aposta nas gordinhas para conquistar uma audiência que, geralmente, não é atendida. Reflexo de tempos politicamente corretos em que todas as minorias precisam garantir seus espaços. A se lamentar, apenas, que durante esse processo o maior sacrificado tenha sido, justamente, o talento.

O que não quer dizer que as protagonistas Carolinie Figueiredo (Beatriz), Mariana Xavier (Marilu), Cacau Protásio (Ivone) e Lyv Ziese (Tânia) não sejam competentes – pelo contrário, o pouco que se salva em Gostosas, Lindas e Sexies se deve, quase que exclusivamente, aos esforços das meninas. O problema é estarem à serviço de uma história limitada em seus recursos e desprovida de lances criativos que evitassem os clichês mais comuns ao gênero. O mais triste, no entanto, é perceber que, além de uma ou outra frase de efeito defendida pelas personagens – “eu como quando estou nervosa e sou feliz assim”, “no meu corpo mando eu e ninguém tem nada a ver com isso” ou “quero um homem que me admire do jeito que eu sou” – nada mais se diferencia de qualquer outra produção similar. Enfim, o argumento do peso extra pode até funcionar como estratégia de marketing, mas não encontra repercussão na trama.

Quem tem dúvidas quanto a isso, basta observar os pares românticos das garotas: André Bankoff, Marcos Pasquim, Marco Antonio Caponi, Guilherme Hamacek e Juan Alba – todos sarados e atraentes que apenas repetem aquele visual perseguido entre as mulheres de... Sex and the City! Não há um único cara ‘normal’, quiçá acima do peso. É diferente de uma Melissa McCarthy, por exemplo, que faz sucesso em Hollywood – foi até indicada ao Oscar – muito em parte pela silhueta mais rechonchuda que, quando surge apaixonada na ficção, volta e meia tem como pares homens com o mesmo estilo físico – como visto na série Mike & Molly (2010-2016) ou quando convida o próprio marido (na vida real) para dividir a cena com ela, o também diretor Ben Falcone. A impressão, com um elenco masculino desses, é que o GLS do título (Gostosas, Lindas e Sexies) na verdade tem como intensão fazer referência não apenas às mulheres, mas também ao espectador gay que, talvez desavisado, receba algum tipo de compensação para enfrentar tantos estereótipos juntos.

Assim como Carrie (Parker), Beatriz também é escritora. Ela trabalha em uma revista para mulheres, que ensina dietas e como arrumar os cabelos, e apesar de ser questionada por sua chefe (Eliane Giardini) sobre suas ambições e o quanto é, de fato, identificada com a sua leitora, parece resumir seus problemas entre o namorado gostosão (Bankoff) ou o amante latino do momento (Caponi). Marilu é a devoradora de homens por excelência que acaba se envolvendo com um aluno (ao menos espera-se que não seja menor de idade!), enquanto que Ivone é a mais poderosa delas, dona de uma rede de salões de beleza, que não tem paciência para as peruagens de suas clientes e acaba apaixonada por um misterioso homem mascarado – aqueles que viram Zohan: O Agente Bom de Corte (2008), uma bobagem em que Adam Sandler interpretava um cabeleireiro afeminado que temia se revelar heterossexual para não perder a clientela, não terão problemas em revelar o segredo tão mal copiado. Já Tânia é a que faz justiça com as próprias mãos e não leva desaforo para casa, e por isso, quando descobre estar sendo traída pelo marido, acabará encontrando o consolo necessário nos braços – e algo mais – do melhor amigo.

Como se pode concluir diante desta rápida sinopse, há muito pouco de original em Gostosas, Lindas e Sexies. É um filme, portanto, que merece seu espaço muito mais pelas ideias que defende em seu argumento do que pelo resultado em si que apresenta na tela. Das protagonistas, Cacau Protásio é a que mais surpreende, compondo um tipo bem distante da rainha do morro escandalosa de Vai Que Cola (2015), enquanto que Mariana Xavier, outra apadrinhada de Paulo Gustavo, surge como um tipo totalmente adulto, longe da menina mimada de Minha Mãe é uma Peça (2013) – duas mudanças que de um jeito ou de outro, acabam funcionando. E ainda que a personagem seja a mais inverossímil, chama atenção a presença de Juliana Alves, que serve como contraponto às suas colegas não só na forma física, mas também nas ambições profissionais – mesmo sem fugir do papel de faxineira para uma atriz negra, ao menos ela é bem resolvida quanto a essa questão, servindo quase como uma fada madrinha para suas ‘patroas’. Em resumo, temos um filme cheio de boas intenções, mas essas são tão escancaradas e mal abordadas por aquele que deveria entender como dosá-las – curiosamente, o cineasta é namorado da única atriz magra (Alves) deste grupo – que qualquer sutileza e desdobramento se perde no caminho, restando apenas o óbvio, sem tirar nem por.

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Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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