Crítica

Toda pequena cidade tem duas coisas em comum, já dizia o empreendedor Ray Kroc: uma igreja e um tribunal. No topo da igreja há uma cruz; no topo do tribunal está a bandeira dos Estados Unidos. Seu objetivo era tornar um certo pequeno restaurante com certos arcos dourados no topo em uma nova igreja americana, presente em todas essas cidades, onde as pessoas pudessem partilhar o pão. O resto você já sabe: o McDonald’s atualmente alimenta 1% da população mundial e Kroc foi um dos empresários mais bem-sucedidos de todos os tempos, responsável por transformar uma simples lanchonete interiorana na maior rede fast-food do mundo. Esta é a história de Fome de Poder, um conto de sucesso e capitalismo tipicamente estadunidense pautado na ganância e conflitos (i/a)morais que preenchem este universo.

Demonstrando que nem só de Henry Ford se constituiu o modelo de produção para as massas, este drama dirigido por John Lee Hancock é uma cinebiografia genérica e plana sobre Kroc, de suas ambições por uma vida melhor às elucubrações e iniciativas mefistofélicas para torna-las reais. Ele faz o gênero que não mede esforços para ascender, nem que tenha que usar algumas pessoas como degraus, enquanto recita máximas de autoajuda corporativa, como “um homem é o que ele pensa a maior parte do tempo” ou “nada é mais comum que homens malsucedidos cheios de talento” – esta última representada ao contrário pela produção.

O roteiro de Fome de Poder conta com a assinatura de Robert Siegel, que já ofereceu sua expertise como jornalista para narrar a vida sombria de um personagem sem deixar de lado sua humanidade em O Lutador (2008). Isso não chega a acontecer novamente, uma vez que seu enfoque sobre Kroc e o histórico da expansão do McDonald’s só faz bem àqueles nela retratados, numa abordagem chapa branca repleta de omissões, pouco corajosa e rasa, que não apresenta nada que não possa ser descoberto num artigo da Wikipedia. Se tiver preguiça de ler e duas horas sobrando, veja esta versão interpretada por Michael Keaton.

Por falar em Keaton, o ator oscarizado que se redimiu de papeis pífios com sua performance em Birdman (2014) não tem muito o que fazer aqui. Sua caracterização como Kroc é tão apática quanto a de Jennifer Lawrence em Joy: O Nome do Sucesso (2015) – para citar outra cinebio superestimada que também deve ser apresentada e estudada nos cursos de administração ocidentais. Há um ou outro momento inspirado, geralmente contracenado com os verdadeiros fundadores do McDonald’s, interpretados por Nick Offerman e John Caroll Lynch. No mais, Keaton se esforça com o pouco material que tem em mãos, dividido entre frases de efeito e a transformação pouco crível de um personagem que é introduzido com uma ambição inocente e termina como a própria encarnação do maquiavelismo corporativo norte-americano. Ao seu lado figuram Laura Dern, Linda Caderllini e Patrick Wilson em aparições breves que servem apenas para reiterar a índole questionável do protagonista do filme.

Entre seus feitos, Kroc substituiu o leite dos milk shakes do McDonald’s por um composto em pó solúvel em água, que se assemelhava em aparência e sabor com o original. Fome de Poder segue a mesma receita: uma fórmula fácil para ser consumida e saciar rapidamente, mas que logo deixa a consciência pesada por ser uma refeição tão incompleta quanto artificial.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Graduado em Publicidade e Propaganda, coordena a Unidade de Cinema e Vídeo de Caxias do Sul, programa a Sala de Cinema Ulysses Geremia e integra a Comissão de Cinema e Vídeo do Financiarte.
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