Onde Assistir
Sinopse
Em Estopim, quando os pilares se vão, o lugar perde o sentido e o que resta são memórias, silêncios e feridas antigas. Contado em sete capítulos, acompanha os últimos suspiros de uma família à beira do esquecimento a partir da violência doméstica. Drama.
Crítica
Tiago A. Neves chega a Estopim como cineasta já plenamente consciente de suas ferramentas. Em seu décimo trabalho, entre curtas e longas, a experimentação não surge como risco ocasional, mas como eixo estruturante de filmografia marcada pelo rigor formal e pela inquietação política. O diretor demonstra apreço evidente por jogos de câmera, planos-sequência e pela construção de cada enquadramento como discurso. Aqui, esse cuidado estético se alinha a um tema de enorme densidade: a violência psicológica e física exercida por um pai contra uma família composta majoritariamente por mulheres. Forma e conteúdo caminham juntos, ainda que tropeços narrativos impeçam que o impacto pretendido se realize por completo.

Dividido em sete capítulos filmados em planos-sequência ambientados em espaços distintos, o longa se concentra sobretudo em Márcia (Ingrid Castro), a única das filhas que aceita cuidar do pai envelhecido e mentalmente instável. A decisão carrega peso emocional e histórico, uma vez que esse homem foi o agente central de passado marcado por humilhações, abusos e agressões contra a mãe e as filhas. Márcia convoca a ajuda da irmã mais nova, Nilda (Nica Bezerra), que, por sua vez, também se encontra aprisionada em outro ciclo de violência, agora no casamento. A pergunta que atravessa o filme é direta e incômoda: como acolher aquele que foi, durante toda a vida, a origem do trauma?
Visualmente, Estopim revela força e personalidade. Os planos-sequência criam tensão contínua e exigem atenção absoluta do espectador, reforçando a sensação de aprisionamento emocional que atravessa as personagens. No entanto, algumas escolhas do roteiro enfraquecem o alcance crítico da obra. Ao sugerir que praticamente todas as filhas estejam condenadas a repetir trajetórias de abuso, com mínima resistência ou elaboração própria, o filme corre o risco de reduzir suas personagens a funções simbólicas, esvaziando nuances. Até mesmo a filha mais jovem e teoricamente mais esclarecida parece fadada ao mesmo destino, o que levanta questionamentos sobre o olhar lançado à experiência feminina. Soma-se a isso problemas pontuais de continuidade e coerência dramática, além da construção de um antagonista tão absolutizado em sua vilania que se torna, paradoxalmente, pouco verossímil.

Ainda assim, há méritos que não podem ser ignorados. A estrutura fragmentada, que embaralha a cronologia dos acontecimentos, mantém o público preso ao desenrolar da história, criando experiência sufocante e deliberadamente desconfortável. O recurso funciona a ponto de, por momentos, eclipsar até mesmo o fato de que parte do elenco ainda apresenta atuações em estágio inicial, com registros por vezes rudimentares. Estopim se impõe como ensaio relevante sobre a transmissão geracional da violência contra mulheres, mas esbarra justamente na dificuldade de enxergar essas personagens para além desse ciclo. Talvez aí resida seu maior limite: ao denunciar o aprisionamento, acaba por aprisioná-las também dentro de sua própria narrativa.
Filme visto na Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.
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