Crítica

Comédia romântica já é um gênero difícil – qualquer elemento original neste universo é mais raro do que água no deserto. Agora, encarar uma que consegue a proeza de apresentar todos os clichês possíveis ao mesmo tempo é uma tarefa muito complicada! E é isso que tem pela frente qualquer infeliz que decidir conferir Ele Não Está Tão A Fim de Você, um filme tão insuportável quanto dispensável. Na grande maioria de produções similares o que temos é um casal que se apaixona, se separa e depois fica junto no final. Bom, aqui nós temos várias duplas absolutamente iguais, com seus comportamentos estereotipados, atitudes pré-programadas e racionalizações estúpidas, como gado indo para o abate. Nenhum personagem em cena consegue ter uma reação diferente da esperada. E diante de algo tão insosso e repetitivo, tudo o que se consegue oferecer em troca é uma série interminável de bocejos.

Mas também, trouxa aquele que esperava muito. Afinal, na direção está Ken Kwapis, o mesmo cara responsável por Licença para Casar e Quatro Amigas e um Jeans Viajante (quem viu qualquer um dos dois tem noção das bombas a que estou me referindo). O roteiro, por sua vez, é baseado num livro de auto-ajuda feminino, escrito por Greg Behrendt e Liz Tuccillo, que por sua vez se inspiraram em um episódio da série Sex and the City! Já o elenco, que balança entre o cansado e o desinteressado, oferece atuações patéticas, como Ben Affleck com cara de sono, Jennifer Aniston fazendo pela décima vez o papel da abandonada pelo namorado (isso é tudo o que ela sabe fazer, não importando o lado da tela em que se encontra?), Scarlett Johansson novamente como uma ninfeta colocando o casamento dos outros em perigo, assim como Jennifer Connelly, que se repete na posição da mulher competente e bem casada que vê o marido deixá-la pela primeira tentação que cruza seu caminho. Ah, há ainda Drew Barrymore sem dizer a que veio, os inexpressivos Justin Long e Kevin Connolly ocupando espaço em cena e uma neurótica Ginnifer Goodwin, construindo um dos personagens mais insuportáveis dos últimos tempos. Ufa!

As tramas – sim, é mais um filme estilo coral, com várias histórias se cruzando – não são mais do que arquétipos. Tem a moça ansiosa que nunca consegue namorado, a lolita que cobiça um homem casado, o casal em crise – ela quer casar, ele não – e o casal em pré-crise – ele quer deixá-la, ela ainda não sabe. Tem o rapaz que gosta da menina que não dá a mínima pra ele, e o garanhão que trata as mulheres como se elas fossem descartáveis. Ou seja, tem para todos os gostos. Menos para os exigentes, que buscam vida inteligente na tela grande.

Ele Não Está Tão A Fim de Você é ainda mais irritante no seu final. Como uma mensagem do tipo “se você está solteiro(a), não se desespere, o importante é ter paz de espírito e tranquilidade, curtir a si mesmo e se abrir para o mundo ao seu redor” pode combinar com desfechos em que os únicos felizes são os casados/namorados, enquanto que todos os que estão sozinhos encontram-se infelizes, tristes, desamparados e sem esperança? É a mais pura contradição! A mensagem que o filme deveria transmitir – se o cara não te liga no dia seguinte ao encontro, tudo bem, ele não é a última pessoa do planeta! Ele só não está tão afim de você, não é nenhum fim do mundo! Basta seguir em frente, que só quando descobrimos a felicidade em nós é que iremos aprender a compartilhá-la com os outros – é ignorada em vários momentos pelo próprio enredo, e tudo acaba se perdendo em um amontoado de soluções óbvias e conclusões sem efeito prático.

Apesar disso tudo, Ele Não Está Tão A Fim de Você foi um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, tendo faturado quase US$ 100 milhões de dólares só no primeiro mês em cartaz. Sinal, mais uma vez, de que o espectador mediano – ou seria medíocre? – nunca se cansa de ver as mesmas coisas. Com mais de duas horas de projeção – são 129 minutos – e tendo como única participação interessante no elenco a presença de Bradley Cooper (Armações do AmorPenetras Bons de Bico), um novo astro que começa agora a despontar, este filme é indicado somente àqueles desesperados que não sabem mais diferenciar o príncipe encantado do cavalo branco da pessoa real que pode estar ao seu lado no ponto de ônibus ou na fila do restaurante. Agora, pra todo o resto do mundo, o conselho é um só: a vida real é muito mais interessante do que qualquer bobagem como esta, que só em Hollywood consegue fazer algum sentido.

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Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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