Crítica

Em seu segundo longa-metragem, o diretor francês Jean-Charles Hue decidiu se aventurar em terreno desconhecido. Desde 2003, em curtas ou no longa-metragem La BM du Seigneur (2010), o diretor tem apontado sua câmera para os ciganos, em especial a família Dorkel, em obras semidocumentais que traziam elementos não presentes facilmente no cinema, como seus costumes, tradições e, principalmente, o trato entre entes de uma mesma comunidade. Em Eat your Bones, o cineasta resolveu fazer uma obra de ficção, construindo o roteiro e as situações em cima dos três irmãos e do primo Dorkel, uma trupe de não-atores que convence em um longa-metragem que passeia confortavelmente pelos gêneros western e policial, trazendo junto uma levada realista. Lançado em 2014 e exibido na prestigiada Semana dos Realizadores no Festival de Cannes, a produção demorou a chegar em território brasileiro, sendo trazido pelo LIFF – Lume International Film Festival em quinze cidades do país.

Os não-atores emprestam seus nomes verdadeiros para os personagens, mas os diálogos não são improvisados. Hue assina tanto o roteiro quanto a direção, tentando extrair dos seus intérpretes um pouco da verdade de seu universo. Na trama, Fred (Frederick Dorkel) saiu da prisão após 15 anos e se reencontra com seus irmãos Joe (Joseph Dorkel) e Jason (Jason François), assim como seu primo Moise (Moise Dorkel). Eles moram em uma comunidade cigana na periferia e alguns deles se utilizam de negócios escusos para sobreviver. É o caso do jovem Jason, de apenas 18 anos, que rouba combustível para fazer com que os carros da família possam funcionar. Em um desses roubos, descobre uma quantia grande de cobre em transporte, temporariamente guardado em um depósito próximo, e resolve contar para seu recém liberto irmão mais velho. Os quatro, então, partem para roubar essa carga e garantir um futuro menos sofrido para a família. No caminho, feridas do passado e problemas do presente colidem, com o quarteto vivendo um reencontro cheio de rusgas.

O roubo da carga não passa de um McGuffin – algo que os personagens consideram importante, mas que serve apenas para fazer a história andar. Embora pareça, ao menos em sua superfície, um filme de gênero, um thriller policial com pitadas de faroeste urbano, Eat your Bones está mais próximo de um drama familiar, sem os clichês que normalmente lhes são associados. É lógico que naquele seio familiar, entre aqueles quatro homens, existe um amor indescritível e um ódio à flor da pele. Eles brigam, se xingam, se machucam. Eles são uma família, afinal de contas. São irmãos colocados em uma situação maior do que poderiam suportar. Invés de construir uma trama que coloque aqueles sujeitos vomitando seus sentimentos um para o outro, o não dito é mais importante para o cineasta Jean-Charles Hue. Mas não pense que esse é um filme de silêncios. Eles falam muito. Mas sobre qualquer outra coisa que não sua relação.

Os intérpretes dos personagens, embora não-atores, conseguem boas performances, com destaque para Frederic Dorkel e Jason François, ambos com os melhores arcos. O primeiro precisa retornar ao convívio da família depois de 15 anos encarcerado. O fato de ter matado um policial ainda o persegue e a perda do pai durante esse período é algo que o incomoda. O segundo, com 18 anos de idade, mal teve contato com o irmão mais velho, mas entende os sacrifícios que Fred fez no passado para sustentá-lo. Descobrindo seu lugar na família, vivendo primeiras experiências, o rapaz é a força motriz da trama – Moise, por exemplo, nem estaria ali não fosse Jason (em um dos únicos momentos abertos de afeto entre os personagens, ele revela que está ali apenas para proteger seu primo, um irmão mais novo para ele). As consequências das ações daqueles quatro terão, certamente, reflexo no amadurecimento daquele jovem rapaz. Para o bem e para o mal.

Com 95 minutos de duração, Eat your Bones cansa um tanto por demorar a traçar a verdadeira narrativa do filme. O andamento lento, mesmo intencional, incomoda. Para os fãs dos gêneros citados – thriller e western – falta mais agilidade. Para quem busca um filme mais autoral, pode sair mais satisfeito, embora seja possível notar arestas a serem aparadas – como o pouco desenvolvimento de alguns personagens, como Joseph e o próprio Moise. Por outro lado, essa produção francesa traz uma visão pouco difundida do povo cigano, que só por isso já pode interessar e muito o público mais atento.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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