Crítica

O cinema de países emergentes volta e meia revela a necessidade de seus realizadores de serem ouvidos, acima de qualquer coisa. Quando se tratam de regiões sob governos de exceção, com cerceamentos de liberdade e envoltos em conflitos bélicos, então, a manifestação audiovisual se torna ainda mais relevante, seja por sua repercussão ao redor do mundo como também pelo alcance e resistência de seu discurso, que irá além do mero primeiro contato, sempre tão efêmero e superficial. Ao contrário de cinematografias focadas no entretenimento e na diversão, estas narrativas se revelam retratos de uma realidade que, sob outra forma, nunca seria percebida. Este, no entanto, é apenas um dos méritos de Dégradé, longa de estreia dos diretores Arab e Tarzan Nasser.

Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2015, o filme dos irmãos Nasser (nascidos Mohammed Abou e Ahmad Abou Nasser, respectivamente) se diferencia de outros similares por dar voz quase que exclusivamente às mulheres. Em um momento social e histórico que tanto tem se discutido questões como empoderamento feminino e igualdade de gêneros, uma proposta como essa vem bem à calhar. Ainda mais quando o foco de ação se passa na Faixa de Gaza, território palestino entre o Egito e Israel, cujos enfrentamentos militares e ataques terroristas se tornaram nos últimos tempos tão constantes a ponto de serem parte da rotina daqueles que lá habitam. E se muitas vezes nos deparamos com histórias predominantemente masculinas, envolvendo tanto os afetados como aqueles que promovem estes ataques, aqui somos convidados a nos deparar com um outro tipo de ponto de vista a respeito desta mesma situação.

Assim como no francês Instituto de Beleza Vênus (1999) ou o americano Um Salão do Barulho (2005), a ação de Dégradé se passa inteiramente dentro de um salão de beleza – de forma ainda mais radical do que os seus antecessores, pois não há uma única cena feita no exterior do estabelecimento, e as que na rua se situam, são observadas de dentro deste espaço. Lá se encontram 13 mulheres – número cabalístico que não é desprezado pelos realizadores. Temos a proprietária, sua filha – ainda criança – e uma funcionária, além das clientes. O que se percebe nesta distribuição de personagens é uma busca de uma representatividade que reflita a condição atual da mulher naquela parte do mundo: há a emigrante, a que apanha do marido, a que está prestes a se casar, a mãe que não tem voz ativa, a sogra que, por estar ali representando o filho – portanto, um homem – se acha no direito de mandar nas demais, a religiosa, a autoritária, a grávida, e até mesmo aquela já sem esperanças.

Este equilíbrio, se por um lado é elucidativo ao espectador ocidental, por outro acaba reduzindo o discurso do longa a um mero denuncismo. São poucas dentre elas as que conseguem escapar do estereótipo. A que está com oito meses de gravidez aparece apenas para gerar posteriormente um momento de risco com um possível nascimento prematuro. A que está ali para se preparar para o próprio casamento parece ser mero joguete nas mãos daquelas ao seu redor, como consequência de decisões que a ela não competem. Por outro lado, a atriz mais conhecida do elenco, a excelente Hiam Abbass, defende uma figura por vezes antipática – a da cliente exigente – mas, também, a mais complexa em sua visão de mundo. Surpresa, no entanto, encontramos na tagarela que, aos poucos, irá indicar ter motivos mais sérios para o comportamento aparentemente tresloucado que conduz.

E por que estas mulheres estão trancafiadas dentro de um salão? Primeiro, por uma questão prática: uma delas desfez há pouco o namoro e o ex, ultrajado, roubou um filhote de leão do zoológico e está com o animal a sua espera, no meio da rua, em frente ao local. O incidente irá despertar a ira de facções inimigas, e com a briga entre elas será a vez das forças armadas intervirem. O que começa como um desentendimento amoroso logo adquire proporções mais graves e pertinentes. Assim como um corte de cabelo que combina várias influências e, da mistura, produz algo novo, Dégradé também tenta se mostrar acima de um embate já muito explorado, mas que segue oferecendo oportunidades de interpretação. Estas mulheres podem não encerrar nelas mesmas um único mundo – pelo contrário, está na multiplicidade de seus olhares uma das chaves de um possível entendimento. E aprender esse tipo de sensibilidade pode ser apenas o primeiro passo rumo a algo que todos anseiam, não apenas um ou outro sexo.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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