Onde Assistir
Sinopse
Dao acompanha Gloria enquanto organiza, em Paris, o casamento da filha. Entre provas de vestido e preparativos formais, as lembranças a transportam para anos antes, na Guiné-Bissau, quando participou da cerimônia que consagrou seu pai como ancestral. À medida que o presente avança, memórias daquele ritual tradicional ressurgem com força, confrontando-a com raízes, ausências e escolhas que atravessam gerações. Drama/Família.
Crítica
Toda seleção competitiva de festival contemporâneo parece sempre contar com ao menos um filme que poderia ter facilmente metade de sua duração, sem prejuízo algum (muitas vezes, até com considerável ganho) para o projeto. Na Berlinale de 2026, este título é Dao, uma produção conjunta entre França, Senegal e Guiné-Bissau que mescla ficção e documentário a partir de uma linha narrativa mínima: Béa (Katy Correa) retorna à Guiné-Bissau diante da perspectiva do casamento de sua única filha, a jovem Nour (D’Johé Kouadio). O desejo da protagonista é colocar a filha em contato com sua ancestralidade, fazendo com que ela participe de um ritual pelo espírito do avô e, assim, possa se dedicar à realização da festa de casamento (traçando seu futuro a partir desse contato primordial com o passado).

Logo no início da narrativa, uma cartela informa o significado do título, esclarecendo que Dao seria “um movimento circular e perpétuo que flui em tudo e conecta o mundo inteiro”. A partir desse conceito, o diretor e roteirista Alain Gomis constrói uma abordagem que, se não é nova, aqui articula elementos de frescor, ao lidar com o embate entre manutenção da tradição e assimilação cultural. Deste modo, mescla-se documentário e ficção em três linhas narrativas que se entrecruzam (melhor dizendo, circundam umas às outras): a cerimônia fúnebre do pai de Béa, o casamento de Nour e a preparação dos atores para o filme, que inclui entrevistas e fragmentos de ensaios.
A carismática protagonista aponta para o coração do filme quando diz em sua entrevista inicial: “Meus filmes favoritos são sobre cultura”. De fato, a obra ganha quando se aproxima de Katy, tematizando as contradições da vida de uma mulher livre que se mantém enraizada culturalmente, lutando para demarcar seu espaço em cada interação (seja com a filha, pretendentes românticos ou parentes). O olhar de Katy, um olhar compenetrado, de (re)descoberta – a mãe revê suas tradições pelo olhar da filha – é o ponto alto do filme. Também as entrevistas com os atores não profissionais que se candidatam para integrar o elenco trazem momentos instigantes, que exploram as dificuldades da manutenção da identidade cultural em terra estrangeira.
A interessante temática rende outras passagens inspiradas, incluindo uma viva discussão sobre a validade dos castigos físicos na criação infantil. A tentativa de ousar na construção formal, que incorpora o tema (a permanência da morte e do passado na vida presente, com a dissolução da noção da linearidade do tempo), mantém o interesse por parte do desenvolvimento. Também a montagem tem momentos de brilho, conseguindo estabelecer a sensação de circularidade pretendida. Apesar disso, a fórmula se esgota rapidamente.

Sabe-se que o cinema tem revestido do verniz de grande arte o filme longuíssimo (Dao tem 185 intermináveis minutos), que parece querer se afirmar como desafio intelectual, mas em geral se mostra uma proposta menos intrincada do que se pretende (ou um exercício de vaidade puro e simples). Nunca é tarde para lembrar, no entanto, que expressar com concisão uma ideia original pode (não sempre, mas frequentemente) ser a melhor maneira de comunicá-la. Em Dao, por outro lado, tem-se a sensação de que o filme de fato consegue construir uma nova dimensão temporal, dimensão na qual ele nunca chegará a termo, para o sofrimento do espectador, que se vê acompanhando uma série de imagens progressivamente redundantes que, ao fim, parecem uma compilação minimamente editada do material bruto captado.
Filme visto durante a 76o Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026
Últimos artigos deMaria Caú (Ver Tudo)
- The Loneliest Man in Town - 26 de fevereiro de 2026
- Yo (Love is a Rebellious Bird) - 21 de fevereiro de 2026
- Josephine - 20 de fevereiro de 2026

Deixe um comentário