Crítica

Assim como Frances Ha (2013), Azul é a Cor Mais Quente (2013) traz uma história de amadurecimento e auto-aceitação. Se no filme de Baumbach as questões se dão em torno da vida profissional e o crescimento tardio da quase balzaquiana Frances, aqui acompanhamos a protagonista, Adèle (Adèle Exarchopoulos), que acaba tendo de encarar a descoberta de sua vida amorosa e sexual e ainda fazer a tão dolorosa passagem da juventude para a idade adulta.

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2013, Azul é a Cor Mais Quente é uma história inspirada livremente na graphic novel de mesmo nome, escrita e desenhada por Julie Maroh. Pela lente do diretor Abdellatif Kechiche (O Segredo do Grão, 2007) somos apresentados a essa personagem um pouco à margem, sem, no entanto, que inicialmente ela pareça estar de fato marginalizada. Afinal, Adèle é uma garota de 16 anos como qualquer outra, possui sua turma de amigas, se dedica a estudar e ler muito e também paquerar. Paralelamente a sua história, ela lê “A Vida de Marianne”, de Pierre de Marivaux, e alguns trechos que estão sendo trabalhados em sala de aula acabam por se encaixar perfeitamente em seus dias.

Um desses é quando encontra na rua uma garota misteriosa de cabelos azuis que deixa um vazio a ser preenchido, como descreve Marivaux. Um amor à primeira vista. A garota é Emma (Léa Seydoux, em performance ofuscada por Adèle Exarchopoulos), uma graduanda em Belas Artes que nossa protagonista, desbravando suas dúvidas na noite, a encontra novamente em um bar de lésbicas. É o pontapé inicial para o relacionamento entre elas começar e também para corações serem partidos.

Mais do que acompanhar o nascimento do envolvimento amoroso das personagens, vamos percebendo o desaparecimento dele, as escolhas imaturas, as sabotagens, toda a complexidade que é se relacionar e, principalmente, se jogar completamente no amor. E amar é abstrato, difícil de traduzir. Kechiche assume a missão de externar tudo isso na tela. Todo esse amor incondicional. É aí que as cenas e planos de olhos, bocas, toques e pele são justificados. São essas as formas que encontramos, muitas vezes, de demonstrar o amor.

A junção dos corpos também é uma dessas demonstrações – e já adianto, esqueça as polêmicas em torno da tão falada cena de sexo gravada durante longos 10 dias, a qual Léa Seydoux engrossou o caldo dizendo que se sentiu explorada. Ora, a contribuição dessa sequência para a história é justificada e necessária. Estamos assistindo a um filme que se propõe a um retrato quase documental do crescimento dessa personagem e nada mais justo que filmar o sexo de forma natural, sem pudores. Por mais atuado que seja, existe um naturalismo, quase uma verdade. Deveríamos trocar o costume de assistir 10 minutos de explosões, tiros e corpos mutilados à la Tarantino por cenas como essas, que possuem um saldo positivo e ajudam a quebrar paradigmas.

O que Kechiche nos mostra durante Azul é a Cor Mais Quente, e que o título original francês traduz e conecta maravilhosamente bem com o livro de Marivaux, é a vida de Adèle. Mas não é somente a vida que transcorre durante suas 3 horas de exibição na tela do cinema. É ainda a vida que surge no plano final da produção, é ali onde assistimos a chegada da vida, o começo de tudo. Ela amadurece e erra muito nesse processo de autodescoberta de ser ou não lésbica, de ser ou não uma adulta, de ser ou não ser uma escritora e tantas outras coisas. Isso é uma parte da vida da personagem. A vida de Adèle começa assim que a tela fica escura e a sala acende suas luzes e imaginamos o que acontecerá dali adiante com ela, depois de todo esse processo de amadurecimento de gosto doce e amargo, que só a vida e um coração partido nos proporciona.

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é graduado em Cinema e Animação pela Universidade Federal de Pelotas (RS), membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e escreve também para o site Calvero e o portal paulista It Pop.
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