Crítica

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Primeiro longa-metragem da diretora Leyla Bouzid, Assim que Abro Meus Olhos é ambientado na Tunísia, em 2010, e se desenvolve a poucos meses da Revolução Jasmim, na qual os tunisianos saíram às ruas para depor o então presidente Zine el-Abidine Ben Ali, que estava no poder há mais de 20 anos. Esse sentimento revolucionário traça um paralelo com as vivências de Farrah (Baya Medhaffer), uma jovem de 18 anos que luta contra o conservadorismo de sua família ao passo que faz a passagem da adolescência para a idade adulta.

Com isso, duas revoluções estão prestes a eclodir. Cada uma na sua devida proporção. Enquanto o país deseja eleições diretas, a garota busca se realizar como mulher e profissional. Afinal, a família está decidida que Farrah será médica, porém ela tem outros planos. Quer cursar uma faculdade de música e desenvolver o seu talento para a arte, além de cantar pelos bares à noite junto de um grupo de amigos considerados subversivos. São jovens que buscam a liberdade de seu país longe da tirania de um governo autoritário.

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Mesmo que a direção de Bouzid não construa a mãe e pai de Farrah como ditadores vilanescos, é inegável a comparação constante do macro com o micro-universo das tramas. E isso não ocorre de modo explícito. Aliás, a narrativa política é até mesmo tratada de modo ameno, chegando ao seu baque apenas quando a protagonista é sequestrada e confrontada por estar se envolvendo com um rapaz que pode estar ligado à movimentação civil que busca tirar o presidente do poder. A sessão de tortura é o momento de maior impacto durante a projeção. Isso se deve, talvez, ao fato de Bouzid apresentar ao espectador a Tunísia pelos olhos de uma jovem mais preocupada com questões do seu próprio mundo, menos com o que acontece no país.

A cena da tortura é, como esperada, incômoda para o espectador que vinha acompanhando um filme alegre e voltado aos confrontos entre pais e filhos. A partir desse momento, Farrah perde a voz com o choque da tortura. A música desaparece de sua vida e parece restar apenas o trauma. Aos poucos, como o título exemplifica perfeitamente, a jovem abre seus olhos para a revolução política e social do seu entorno enquanto os pais concluem a necessidade de reconsiderar o que havia sido pré-estabelecido para a filha.

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Vale destacar, por fim, a dedicada direção de Leyla Bouzid, com belíssimos planos e bom desenvolvimento de personagens. A direção de atores e o envolvimento em cena de Baya Medhaffer e Ghalia Benalli, que interpreta a mãe de Farrah, é excepcional e só reafirma a necessidade de cada vez mais mulheres assumirem as cadeiras de direção. Existe um cuidado em construir as personagens de maneira digna e muito vertical. Assim que Abro Meus Olhos é um filme essencialmente sobre mulheres e também a respeito das dificuldades que encontram no caminho, principalmente os preconceitos junto da necessidade constante de quebrarem paradigmas construídos pela sociedade.

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é graduado em Cinema e Animação pela Universidade Federal de Pelotas (RS), membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e escreve também para o site Calvero e o portal paulista It Pop.
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