Crítica

Ridley Scott costuma afirmar que não é mais do que um operário do cinema e que não possui um interesse especial por um gênero ou outro, em especial à Ficção Científica. Uma declaração no mínimo curiosa, ainda mais se levarmos em conta que foi ele um dos responsáveis pela reinvenção do formato, deixando para sempre o panteão das produções B de baixo orçamento e conduzindo-o definitivamente ao rarefeito espaço das grandes apostas hollywoodianas. Para isso, foi fundamental a sua assinatura em títulos como Alien: O 8o Passageiro (1979) e Blade Runner: O Caçador de Andróides (1982), lá nos primórdios de sua carreira. E se este segundo está, enfim, ganhando agora uma continuação – Blade Runner 2049 (2017), em que Scott atua somente como produtor executivo – está, inquestionavelmente, no seu primeiro longa de destaque a fonte de maior apreço. Afinal, entre este e o atual Alien: Covenant há ainda o enigmático Prometheus (2012), formando uma trilogia instigante como poucas outras no atual cenário cinematográfico mundial. Obra de autor, quer ele queira ou não.

Assim como fez George Lucas com o seu universo Star Wars, Scott também decidiu voltar no tempo para narrar as origens de eventos já mostrados anteriormente. A trama de O 8o Passageiro se passa em 2122, enquanto que a ação de Prometheus transcorre em 2093. Alien: Covenant, portanto, está no meio termo entre um extremo e outro, mais precisamente dez anos após os eventos já revelados. Assim como Nostromo e Prometheus, Covenant é o nome de uma nave. Sua missão, no entanto, é colonizadora: está indo rumo a um planeta remoto que teria, em tese, as condições ideais para uma base humana. No caminho, um acidente estelar acorda a tripulação antes da data estipulada, causando um acidente – a morte do capitão (James Franco) – e obrigando os restantes a tomar uma decisão: voltar à hibernação ou investigar as proximidades de onde se encontram? Nessa segunda alternativa, identificam um outro planeta capaz de atender suas necessidades. Mas quando a esmola é demais – como encontram tão facilmente algo que durante anos de pesquisas não foram capazes de localizar? – o mais sensato não seria desconfiar?

Será neste cenário que o recém assumido comandante Oram (Billy Crudup) e sua equipe, como a oficial Daniels (Katherine Waterston), o sargento Lope (Demián Bichir) e o piloto Tennessee (Danny McBride), irão cruzar caminhos com os dois únicos remanescentes da Prometheus, até então dada como desaparecida: a cientista Liz Shaw (Noomi Rapace) e o autômato David (Michael Fassbender). A Covenant, no entanto, também possui um oficial robótico, Walter (Fassbender, novamente), que nada mais é do que uma versão evoluída do seu gêmeo – ou, melhor dizendo, seria ele representante de uma geração mais apta a se relacionar com os humanos, mais eficiente em muitos sentidos, porém não necessariamente capaz de todo e qualquer tipo de melhoria. David é tão perfeito que chega a pensar por si próprio. Walter, por outro lado, é eficaz, mas ainda assim determinado a obedecer e proteger. Mas a quem cada um deles deve, em última análise, sua fidelidade?

Ao contrário de Prometheus, que procurou estender ao máximo o mistério de sua ligação com a saga Alien, Covenant não perde muito tempo em colocar o temido alienígena selvagem em cena. Porém, ao invés de situar o desenrolar de sua ação inteiramente dentro de uma nave – afinal, para que repetir os clássicos? – a claustrofobia de uma incansável perseguição irá se dar nesse novo e desconhecido planeta. Se o que interessa é monstro em ação, melhor não perder tempo, certo? E neste sentido, Ridley Scott vai direto ao ponto. E tudo isso sem ignorar os questionamentos já levantados, sobre quem somos, de onde viemos e, o mais importante, quem nos criou, mas adicionando outras camadas de reflexão, associando este elemento dissonante de forma intrínseca à evolução da própria humanidade. Se por décadas chegamos a imaginar que o encontro de Ripley (Sigourney Weaver) com o Alien tinha sido obra do acaso, cada vez mais se tem certeza do quão predestinados estes caminhos estavam.

Elemento central de uma nova trilogia – Covenant é sequência direta de Prometheus, mas já foi anunciado que um novo filme fará o elo entre este e O 8o Passageiro – há em cena uma ânsia um tanto fora do controle para se equiparar deslizes já visitados, ao mesmo tempo em que se prepara o terreno para novos voos. Há momentos de filosofia – os embates entre David e Walter são repletos de significados – mas há também aqueles de pura adrenalina – quando Daniels diz, enfim, a que veio. Como equilibrar uns com os outros parece, no entanto, ser o maior desafio. Personagens começam a ser eliminados como carne de abate, sem possibilidades de maiores afeições ou identificações – nem mesmo o casal gay consegue se diferenciar, não indo além do registro já visto em Star Trek: Sem Fronteiras (2016) – e quando finalmente somos colocados frente a frente com a ameaça maior, seu desenlace se dá de modo apressado, quase atropelado. A expectativa é melhor trabalhada, é fato, mas ainda se ressente de uma conclusão pontual, ao invés de mera ponte entre um extremo e outro.

Há acertos também no novo elenco. Crudup está muito adequado como um líder falho no seu improviso, assim como McBride surpreende ao ir além de sua zona de conforto, em uma composição isenta de qualquer forma de humor. Porém, quem pensava que Waterston seria a força dessa nova trama, assim como Weaver foi na quadrilogia original, ledo engana, pois ela pouco é além de uma sombra apagada diante do desempenho impressionante de Fassbender, que mais uma vez entrega uma performance de arrepiar, agora em dose dupla. Ele é a encarnação perfeita da revolta de Pinóquio contra Gepeto, ou, ainda, do Prometeu Moderno contra o Doutor Frankenstein. A inquietação de uma alma sem propósito pode ser mais aterradora do que aquela cujo único objetivo é destruir e aniquilar. E no embate entre estas duas forças, não restará dúvidas a respeito de qual será a mais mortal, irascível e vingativa. Afinal, o homem nunca deixará de ser capaz de surpreender, mesmo diante das situações mais adversas, tanto para o bem, quanto para o mal.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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