Crítica

Gabriel sumiu. Ou melhor, está desaparecido há oito anos. Justamente naquele período de formação da vida de um jovem, entre o final da infância e o início da idade adulta. Mas agora foi reencontrado, tanto tempo depois, vivendo em uma casa de abrigo sob o nome de Leo, quando nem a mãe, Ana, ou mesmo o tio, Enric, assim como os demais parentes, vizinhos e conhecidos da pequena cidade no norte da Espanha onde moram, tinham qualquer tipo de esperança. Afinal, as condições que envolveram o seu desaparecimento foram por demais confusas. E tanto se procurou por ele, muito se percorreu, todas as possibilidades foram esgotadas. Agora, no entanto, isso é passado. Ele está de volta. Mas... estará, mesmo, de fato? Esse jovem que agora se apresenta logo no começo de A Próxima Pele pode tanto ser a resposta de um mistério há muito proposto como o início de uma nova dúvida, ainda mais voraz e contundente. E é bom estar diante de um filme que não esmorece seu discurso em nenhum instante, por mais perturbador que esse possa se revelar após tantos desdobramentos.

O cinema catalão não é dos mais expressivos. A própria Catalunha luta para sobreviver e manter suas tradições, em um conflito direto com a Espanha, nação que a abraçou e hoje exerce controle sobre a região. Com a supremacia espanhola, portanto, é raro nos depararmos com algo da região. Um dos poucos títulos recentes a se destacar no cenário internacional foi o drama familiar Loreak (2014), premiado no Cine Ceará e indicado ao Goya. A Próxima Pele segue uma temática similar, envolvendo pais e filhos, porém com um toque de suspense na mistura. Logo percebemos que estes personagens estão marcados não só por seus traumas do passado, mas também pelas situações atuais em que se encontram. Ana é uma mulher triste, sempre prestes a cair no choro, controlada por aqueles ao seu redor, que vê no retorno do filho a chance de um recomeço. Enric, por outro lado, desconfia de tudo e de todos. E não aceitará tão facilmente a versão que está sendo contada agora. Léo, por sua vez, luta para se ver como Gabriel. Ou estaria se esforçando para ser Gabriel?

Muito do interesse do filme recai sobre a atuação complexa e multifacetada de Àlex Monner (Noite de Verão em Barcelona, 2013), que com habilidade consegue compor um tipo intrigante e hipnótico. Volta e meia abatido por ataques de ansiedade e fúria, ele parece estar lutando consigo diante dois caminhos, seguir em frente ou voltar atrás, atender sua moral ou investir naquilo que dele esperam. Ao lado de uns temos um rapaz carente, junto ao antigo tutor vemos uma verdade desconhecida, ao mesmo tempo em que quando aparece com outros garotos como ele as bravatas e inseguranças surgem com mais facilidade. Ele precisa ser aceito, mas seria por quem é ou por quem julga ser? Colabora em aumentar a nebulosidade deste processo o fato dele ter sido diagnosticado com amnésia seletiva. Ou seja, se lembra de algumas coisas, de outras não. Reconhece a mãe, mas quem era seu melhor amigo? E do pai, do que recorda a seu respeito?

Dois outros nomes se destacam no elenco. Emma Suárez, agora em alta após ter sido convidada para ser a protagonista de Pedro Almodóvar em Julieta (2016) – no qual também vivia uma mãe tendo que lidar com o desaparecimento de um filho – revela aqui o outro lado dessa mesma moeda, com uma fragilidade comovente e dolorida. Ela se agarra àquilo que pode ser sua última oportunidade de felicidade. O marido, que por tantos anos foi uma dor de cabeça, violento e irresponsável, não mais está ao seu lado. Resta-lhe, portanto, o filho perdido. Se Gabriel está vivo, enfim, é um sinal que ela não pode ignorar. Mas nessa equação ainda se faz presente o tio – cunhado dela – que ganha o rosto enigmático de Sergi López (O Labirinto do Fauno, 2006), um dos melhores atores espanhóis da atualidade. Ele sabe que esse garoto não é quem diz ser. Não pode ser. E a fúria e arrependimento que luta para guardar consigo não irá lhe enganar mais uma vez. Mas não poderia, após tanto tempo, Gabriel ter virado outra pessoa?

Há tempos os diretores Isaki Lacuesta e Isa Campo vem trabalhando juntos e assumindo diferentes posições, sejam no roteiro, produção e, agora, pela primeira vez, dividindo juntos a realização. O bom entrosamento entre os dois reflete-se na forma orgânica em que A Próxima Pele se desenvolve. Se Léo é ou não é Gabriel, parece ser uma questão menor – tanto que não é sustentada até o final. Mais interessante são os motivos que surgem com a sua reaparição, tanto para quem o aceita como para quem o rejeita. E, principalmente, os que o levam a tomar as decisões que deflagram a ação. Mentiras, ciúmes, sexualidade e carências se envolvem em um jogo que a todo instante parece dar a impressão de ter ido um passo além do necessário, para que logo em seguida reassuma o controle. E até a aterradora revelação que, enfim, colocará todos os pontos nos seus devidos lugares, há muito com o que se envolver e, principalmente, se questionar. Afinal, o que você faria no lugar de cada um deles?

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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