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Sinopse
Em A Janela, enquanto aguarda a chegada de seu famoso filho que não vê há muito tempo, um escritor idoso e frágil pode estar caminhando por sua propriedade na Patagônia, na Argentina, pela última vez. As coisas poderão mudar - e logo. Drama.
Crítica
A maior parte do cinema feito hoje em dia em qualquer parte do mundo é realizado por e para jovens. Por isso causa uma agradável surpresa quando nos deparamos com uma história protagonizada por um octogenário e conduzida por cineasta de quase setenta anos. E o melhor de tudo: A Janela, de Carlos Sorin, é digno de todo e qualquer aplauso! O longa foge do sentimentalismo exagerado tão comum na cinematografia latino-americana, apostando num viés mais melancólico e reflexivo, tão característico da atual produção argentina. E mesmo dentro deste contexto consegue se destacar pela simplicidade de sua mensagem e o efeito que esta provoca em uma perfeita comunicação com o público.

Esta objetividade no formato está presente em ambos os lados da produção, refletindo a técnica de Sorin. Todos os seus personagens são interpretados por pessoas como se fossem elas mesmas – ou seja, não por atores profissionais. Os nomes não foram alterados, e nem suas profissões – apenas o universo em que se encontram inseridos. Antonio Larreda, conhecido escritor e roteirista, aparece como Dom Antonio, um literato entrevado em sua fazenda no interior dos pampas. Ele é amparado por uma governanta, Maria Del Carmen (Maria Del Carmen Jimenez) e por uma empregada, Emilse (Emilse Roldan). Durante um dia, acompanhamos a movimentação que ocorre na casa – um técnico vem afinar o piano, o motorista traz as encomendas, um inquilino decide pagar as contas, o médico marca presença cumprindo uma rotina diária – enquanto esperam por uma visita especial: o único filho, um pianista reconhecido internacionalmente, que vem da Europa fazer a – provavelmente – última visita ao velho pai. E enquanto tudo isso se desenvolve, presente e passado se confundem, numa ligação única e preciosa.
O título do filme é uma mera formalidade. Assim como no seu trabalho mais conhecido no Brasil, O Cachorro, o nome que a trama recebe é apenas um indicativo – se naquele caso a vida do protagonista mudava ao ganhar um cachorro de briga, desta vez a janela representa a entrada na vida de um homem que sempre viveu da imaginação, em seus livros e escritos, mas que agora não se contenta mais em ficar na cama apenas sonhando – ele quer mais e quer além. Naquele quarto escuro em que se encontra o mundo parece muito pequeno, mas lá fora tudo fica diferente. E é pela fresta da janela entreaberta que consegue vislumbrar todas estas possibilidades de um homem já no final da vida. Inquieto, até chega a se arriscar, e mesmo os resultados não sendo dos melhores, ao menos já arrefecem os ânimos e aquecem o coração. Em ambos os lados da tela.

Premiado no Festival de Valladolid, na Espanha, A Janela é uma obra comovente sem ser piegas, emocionante sem resvalar no clichê e profunda com a sabedoria de evitar o lugar-comum. Dotada de um elenco extremamente sério e competente e de um realizador que sabe o que dizer sem se perder por desvios desnecessários, é uma belíssima produção não direcionada a todo e qualquer espectador, mas que encontrará naqueles que souberem apreciá-la com paciência e cuidado um entendimento muito acima da média. Um filme que vai crescendo aos poucos, com delicadeza e total consciência do que se pretende. E, principalmente, que nos surpreende pela inteligência e respeito.
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