10DANCE

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Sinopse

10DANCE acompanha dois dançarinos consagrados que decidem trocar de especialidades para disputar uma competição de alto nível. Enquanto treinam estilos opostos, a convivência intensa reacende disputas do passado e provoca sentimentos inesperados. Entre técnica, ego e desejo, a parceria é constantemente colocada à prova. Romance.

Crítica

Baseado num mangá publicado originalmente em 2017, 10DANCE se encaixa do subgênero conhecido por “Boys Love”, ou seja, histórias geralmente impregnadas por uma alta carga dramática e emocional de romances entre rapazes, muitas vezes com um assumindo uma postura submissa em relação ao outro, repletas de segredos que vão sendo revelados aos poucos, prometendo reviravoltas de impacto e idas e vindas de relações que parecem ter tudo para dar errado e que, mesmo assim, terminam por superar as adversidades para que os protagonistas fiquem juntos. Todos esses elementos estão aqui presentes nessa que é a adaptação de apenas o primeiro de uma série de livros em quadrinhos que já conta com oito volumes publicados (no Japão) dos quinze prometidos. No Brasil, ao menos até o momento, apenas os dois primeiros foram traduzidos. Enfim, trata-se de um produto pensado tanto para os fãs já convertidos, como também para os que aqui terão seu contato inicial com esse universo. Tendo isso em mente, as novidades não serão muitas, ao mesmo tempo em que a entrega deverá ocorrer na medida das expectativas deste público cativo.

O curioso é que os principais envolvidos nessa produção também aparentam serem novatos nessa linguagem. Keishi Otomo, o diretor e roteirista, é melhor conhecido internacionalmente pelos cinco longas da saga épica Samurai X (lançados entre 2012 e 2021), e seus outros projetos também parecem girar em torno de heróis voluntariosos, conflitos históricos e batalhas grandiosas. Há apenas um título em sua filmografia que talvez dialogue com esse seu esforço recente: Eiri (2019), um drama romântico gay e contemporâneo que agora não está mais sozinho entre seus demais trabalhos. Já os atores escalados para viveram os protagonistas seguem trilhas similares. Keita Machida tem participações em tramas mágicas e fantasiosas como Unknown (2023) e Alice in Borderland (2020-2025), ainda que seu envolvimento com temáticas queer não seja necessariamente uma novidade (a minissérie Parece que se continuar virgem até os 30 você se torna um mago?!, 2020, e Cherry Magic! O Filme, 2022, já discorriam sobre o tema). Por fim, Ryoma Takeuchi era visto até então como um legítimo astro de ação, como apontam títulos como O Sol Não Se Move (2021) e Like a Dragon: Yakuza (2024). O fato de ambos estarem particularmente convincentes como inimigos que se descobrem apaixonados é mais um ponto a favor que atesta a versatilidade da dupla.

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Machida representa a excelência a ser alcançada. Ele surge como Shinya Sugiki, um experiente dançarino cujas apresentações deixam seus concorrentes ambicionando um dia serem como ele. Sua presença fria e distante também pode ser confundida com arrogância, exatamente a percepção de Shinya Suzuki, personagem de Takeuchi. É esse, no entanto, o narrador da história (um recurso que faz sentido na literatura, mas que aqui é somente redundante), e quem se demonstra surpreso quando aquele por quem nutre tanto desprezo – mesmo sem o conhecer – surge em sua frente convidando-o para uma inusitada parceria. Tanto um, quanto o outro, possuem parceiras de dança. Mas são eles, os dançarinos, as verdadeiras estrelas. Sugiki é pura elegância, classe e ordem. Já Suzuki, habituado a dominar as competições modernas, é selvagem, sexy e incontrolável. Cada um é o melhor em sua respectiva área de expertise. Porém não se tratam de campeões. Além de um alegado preconceito contra representantes orientais, há ainda a maior de todas as competições, a que dá título ao filme e que não se contenta em apenas apurar os melhores entre as cinco provas clássicas, ou entre os cinco estilos latinos. É preciso dominar os passos e os movimentos nos dez desafios. É por isso que um irá necessitar do aprendizado do outro. Um tendo que se soltar, o outro entendendo como regras existem por suas finalidades. E, no meio dessa caminhada, o desejo que passarão a sentir mutuamente é que ditará os próximos desdobramentos dessa inesperada relação.

Tudo é bastante óbvio e esperado, o que já era previsto, pois é o que o público acostumado a esse tipo de romance está habituado. Porém, 10DANCE testa os limites da paciência de sua audiência. Para se ter ideia, Sugiki e Suzuki podem compartilhar do mesmo prenome, mas levará mais da metade do filme nutrindo uma antipatia quase inexplicável até que, enfim, se deixem levar um pelos braços do outro – uma mudança que ocorre também sem maiores explicações. As analogias são bastante explícitas: se Sugiki é o cérebro, Suzuki é a emoção. A ponto de ser dito em cena, com todas as letras, que “o campeonato só será seu quando a paixão for visível em você”. Ou seja, é como se um fosse empurrado para cair nos encantos do parceiro, oponente e amante. Otomo se ocupa mais em explorar a sensualidade sempre em ebulição cada vez que seus protagonistas dançam juntos, e menos as apresentações de fato – para isso existem programas de televisão e cortes no youtube. O que importa aqui é o nascimento de um sentimento que está além da pista de dança. Isso sem falar da quebra de um paradigma – dois homens dançando lado a lado, de braços dados e declarando o que sentem – em um contexto até então conservador e guiado por doutrinas bastante rígidas. Não é o fim do mundo, nem a imposição de um outro. Trata-se apenas do início de uma transição inevitável. E os que lembrarem que a série literária conta com mais de uma dezena de tomos, o fato é que há muito a ser explorado nos capítulos futuros. O primeiro passo foi dado. Resta ver se nos próximos o ritmo irá, enfim, falar mais alto.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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CríticoNota
Robledo Milani
6
Cecilia Barroso
5
MÉDIA
5.5

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