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Sinopse

Gabrielle vive uma crise pessoal após o término da Segunda Guerra Mundial. Pressionada a casar-se com um viúvo frequentador de prostíbulos, ela busca a cura para o seu mal dos rins numa estância termal, onde conhece um veterano por quem se apaixona.

Crítica

O périplo de Gabrielle (Marion Cotillard) em Um Instante de Amor começa na identificação de um endereço, em Lyon, que remete ao passado marcado por uma adolescência conturbada e o casamento com o homem por quem não nutria qualquer carinho. O desejo da protagonista se manifesta na juventude, em cenas tão belas quanto deflagradoras de um desajuste prontamente reprimido. O banho da genitália no rio, os flertes com o professor, o modo lânguido de movimentar-se na cama, deixando à mostra partes do corpo, como se a seminudez ajudasse a dar vazão aos impulsos eróticos, são momentos em que a cineasta Nicole Garcia molda a personalidade singular de Gabrielle. É flagrante sua inquietação física, mas também comportamental, em rota de colisão com as imposições sociais que, uma vez não respeitadas, fazem dela pária, alguém cuja individualidade precisa ser tolhida em função da adequação. Sua mãe, Adèle (Brigitte Roüan), acha que a melhor solução é o matrimônio.

Abordando com bastante habilidade as etapas da conformidade de Gabrielle à nova realidade, pois ela casa a contragosto com um dos empregados da família, o espanhol José (Alex Brendemühl), a realizadora constrói um percurso essencialmente melancólico, partindo das reações da personagem interpretada com maestria por Marion Cotillard. Tem sabor de clássica desventura romântica este Um Instante de Amor, filme alinhado temática e estruturalmente com os melodramas abundantes, especialmente, até os anos 50. Todavia, a protagonista possui uma conduta nem sempre influenciada de maneira determinante por instâncias externas ou contratempos surgidos, uma vez que sua natureza de constante insatisfação promove e condiciona certos desdobramentos da trama. Ao descobrir que as câimbras violentas sentidas na região pélvica são sintomas de cálculos renais, ela se interna numa clínica na Suíça, passando a ter episódios de alegria na insólita companhia de um desconhecido.

Em meio ao turbilhão de contradições e dificuldades incessantemente estampado no semblante angustiado de Gabrielle, ela conhece André (Louis Garrel), militar jovem, porém de saúde comprometida, por quem prontamente se apaixona. Iluminada pela chama desse sentimento improvável, ela vê enfraquecida sua característica tempestade interior, embora não fuja do dilema, afinal apaixona-se sendo casada. Voltado prioritariamente aos impasses femininos, Um Instante de Amor, contudo, não relega as figuras masculinas à mera figuração. José, por exemplo, exibe amor incondicional pela mulher que mal lhe nota diariamente. O ator Alex Brendemühl se destaca em virtude da mirada perdida, sinal das elucubrações silenciosas de um sujeito que carrega o próprio fardo sem verbalizar sofrimento, externando o mesmo apenas por meio das sutilezas de suas atitudes. Já Garrel é como um fantasma, projeção acamada dos anseios de Gabrielle, ao mesmo tempo sedutor e trágico, pois convalescente.

Quando fechado o círculo narrativo que, então, devolve o expectador ao ponto inicial, Nicole Garcia lança mão de um engenhoso plot twist, jogada que enriquece o filme por lhe oferecer outras nuances, reforçando a inclinação ao drama. Um Instante de Amor é visualmente muito bonito, méritos da fotografia a cargo de Christophe Beaucarne, o mesmo de A Espuma dos Dias (2013), e também da direção de arte sob a responsabilidade de Sandrine Jarron. Mas, realmente, é o desempenho do elenco que eleva tudo a um patamar sensível. Os olhos de Cotillard denunciam o torvelinho que lhe invade a cada reviravolta ou novidade. Já a expressão resignada de Brendemühl se encarrega de oferecer um contraponto à experiência da protagonista, por sinal, ajudando a evitar que ela se coloque na tela como uma vítima das circunstâncias, assim ampliando-a enquanto personagem. Próximo do fim, a impossibilidade do romantismo pleno dá lugar à constatação de que o dito amor verdadeiro tem várias facetas.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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