O nosso papo é de cinema!


Um Conto Chinês

03/11/2011    

 

Crítica

Grande sucesso de bilheteria na Argentina, Um Conto Chinês chegou ao Brasil enaltecendo o fato de ter somado mais de um milhão de espectadores nas bilheterias do seu país de origem. É um número que impressiona, ainda mais se lembrarmos que a população argentina é cerca de 4 a 5 vezes menor que a brasileira. E em comparação, menos de 5% dos filmes nacionais conseguem ultrapassar essa marca em nosso território – agora, os que conseguem, chegam a atingir a quantia de 3, de 5 ou até mesmo de 11 milhões de pessoas, como foi o inacreditável feito alcançado por Tropa de Elite 2. Mas, com exceção desse e de um ou outro, a maioria dos longas brasileiros que se tornam favoritos de público deixam muito a desejar em suas relações com a crítica. A boa notícia, ao menos nesse caso, é que a mesma sina não se repete.

Muito tem se falado que o principal mérito das produções argentinas são seus roteiros, humanos e verdadeiros, emocionantes e envolventes. Pois esse Um Conto Chinês possui tudo isso e mais um grande aliado: a presença de Ricardo Darín como protagonista. Ele pode ser considerado o Robert De Niro – ou seria o George Clooney? – do cinema platino! Tudo o que faz possui uma qualidade singular, agindo como uma garantia de boas histórias e de filmes acima da média. Estão no seu currículo o vencedor do Oscar O Segredo dos Seus Olhos (2009) e o indicado O Filho da Noiva (2001), além do ágil Nove Rainhas (2000), do polêmico XXY (2007), do pesado Abutres (2010) e do saudosista Clube da Lua (2004), dentre tantos outros. E dessa vez ele se reinventa novamente, deixando de lado o ar de galã irresponsável para compor um tipo único, divertido e carismático em sua casmurrice, repleto de manias aparentemente tolas, mas todas donas de uma verdade só dele. E o prazer de ir desvendando-o aos poucos, como camadas de uma cebola, é raro e prazeroso.

Um Conto Chinês parte de um fato absurdo e verídico, tão inacreditável que só poderia ser verdadeiro. No meio da China, um rapaz decide pedir sua namorada em casamento durante um passeio pelo barco. Estão somente os dois na pequena canoa, durante uma tarde calma e tranquila. Até que uma vaca literalmente cai do céu exatamente em cima deles, matando a moça e deixando o namorado completamente sozinho no mundo. Como o animal foi surgir dos céus é outra história, e muito da crença de que, sim, é possível que um episódio tão insólito quanto esse aconteça, está a base da trama. Logo em seguida vemos o mesmo jovem desembarcando em Buenos Aires, sem saber falar uma só palavra em espanhol. Ele acaba conquistando as graças de Roberto (Darín), o solteirão e ranzinza dono de uma ferragem que ao tentar ajudá-lo só consegue aumentar gradativamente a confusão do seu dia a dia. E os dois, mesmo sem conseguirem se comunicar verbalmente, irão mudar de forma definitiva a vida um do outro.

Assim como muitos dos filmes argentinos, Um Conto Chinês parece ser uma coisa, mas depois revela-se outra. Parece ser uma comédia besteirol – e, partindo de um argumento como esse, se fosse uma produção hollywoodiana certamente seria. Mas há um carinho e uma preocupação muito grande com os personagens aqui, e os risos, no início surgidos da incredulidade, logo serão substituídos por um olhar mais enternecido, por um entendimento mais humanista e pela certeza de que somos todos iguais, independente das nossas inúmeras diferenças. Se à princípio parece ser um longa de uma piada só, essa sensação aos poucos é deixada de lado, e mesmo o ritmo um pouco lento durante o seu desenvolvimento é superado por uma conclusão que pouco diz, mas mostra absolutamente tudo. Mais uma aula de cinema de cortesia dos nossos hermanos. Gracias!

Nota da crítica

4/5

avatar

Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Mande um mail para Robledo

Veja outros textos assinados por Robledo Milani

Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Un cuento chino

PAÍS DE ORIGEM: Argentina, Espanha

ANO: 2011

DIREÇÃO: Sebastián Borensztein

ROTEIRO: Sebastián Borensztein

EDIÇÃO: Pablo Barbieri Carrera, Fernando Pardo

FOTOGRAFIA: Rolo Pulpeiro

MÚSICA: Lucio Godoy

DIREÇÃO DE ARTE: Laura Musso

PRODUÇÃO: Mariela Besuievski

ESTÚDIO: Aliwood Mediterráneo Producciones, Castafiore Films, Gloriamundi Films, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), Instituto de Crédito Oficial (ICO), Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA), Pampa Film, Royal Cinema Group, Televisión Federal (Telefe), Tornasol Films

SITE OFICIAL: www.uncuentochino.com.ar

ELENCO: Ricardo Darín, Muriel Santa Ana, Ignacio Huang, Javier Pinto, Julia Castelló Agulló

Sinopse

Roberto (Ricardo Darín), um veterano de guerra das Malvinas, tornou-se um velho rabugento que prefere não sair de casa. Seu único contato com o mundo é por meio da casa de ferragens da qual é dono. Sua vida vai mudar completamente quando se vê forçado a cuidar de um chinês (Ignacio Huang) que foi jogado de um táxi nas ruas de Buenos Aires e não fala uma palavra em espanhol.

Curiosidades

- Campeão de bilheteria na Argentina, somou mais de um milhão de espectadores no seu país natal.

2 comentários para “Um Conto Chinês”

  1. Sofiaem 24/02/2014 às 13:36

    Este filme é excelente. Não se trata de comédia, sim de um drama delicado, sensível. Muito bem-feito, prende nossa atenção do começo ao fim. Ficamos ansiosos por saber como será a solução para o problema enfrentado por Roberto ( Ricardo Darin)e Jun ( o chinês deslocado de sua terra). Há pequenas inserções românticas, uma fina ironia permeia os diálogos. Nada falta a esse filme, que merece a atenção não só dos argentinos, dos latinos, mas do mundo todo. Temática universal tratada com o melhor que pode haver no cinema.

  2. Sofiaem 24/02/2014 às 13:43

    Pena que nossos filmes não tenham esta capacidade do cinema argentino de tocar-nos profundamente, prender nossa atenção e deixar-nos satisfeitos com o que acabamos de ver. Quem não gosta de rever O filho da Noiva, O Segredo de seus olhos, Nove Rainhas – todos argentinos, todos com Darin? Eu não vi nem quero ver Carandiru, Tropa de Elite e todas as coisas desagradáveis que o Brasil produz em cinema. Quando temos uma comédia, é deboche e besteirol- De Pernas pro Ar e companhia; quando é drama, a tônica é violência – ou chateação, como Casa de Areia – que desperdício de Fernandas -tô fora!

  • Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

  • "Minha Mãe é Uma Peça 2" (Paris)

    4ªSemana: 751 mil espectadores

    Público Total: 6,6 milhões de espectadores

  • "Assassin`s Creed" (Fox)

    Estreia: 729 mil espectadores

    Público Total: 730 mil espectadores

     

  • "Moana: Um Mar de Aventuras" (Disney)

    2ªSemana: 680 mil espectadores

    Público Total: 2,4 milhões de espectadores

  • "Passageiros" (Sony)

    2ªSemana: 222 mil espectadores

    Público Total: 1 milhão de espectadores

  • "Eu Fico Loko" (Paris)

    Estreia: 222 mil espectadores

    Público Total: 224 mil espectadores