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Um Cadáver Para Sobreviver

07/01/2017    

 

Crítica

O estranhamento não poderia ser maior já no início de Um Cadáver Para Sobreviver. O morto do título, chamado aleatoriamente de Manny (Daniel Radcliffe), aparece numa ilha deserta como salvação para Hank (Paul Dano), um solitário perdido na região que está prestes a se matar. Mas a forma como este milagre surge não poderia ser mais peculiar. O corpo de Manny solta gases a todo instante, servindo como uma espécie de motor que Hank utiliza para fugir da ilha. Sim, um jet ski humano à base de peidos, falando da forma mais clara possível. Porém, a obra dos estreantes Daniel Kwan e Daniel Scheinert não se restringe a flatulências, assim como o cadáver do título tem mil e uma utilidades - como já sugere o título original (homem-canivete suíço, numa tradução livre e literal). Acima de tudo, é uma história sobre solidão e desamor com um toque de surrealismo que talvez só os mais sensíveis consigam apreciar sem julgar o humor servido em conjunto.

A obra é fantástica no sentido estrito da palavra ao mostrar que Hank aceita aquele cadáver com sobrevida de uma forma fácil e sem preconceitos. Enquanto carrega Manny para tudo que é lado em busca de comida e uma saída para a civilização, o personagem vai contando sua história para o morto, numa troca de experiências em que fica muito clara a inversão de papéis. Enquanto Manny quer conhecer tudo que vê e toca, como uma criança descobrindo o mundo, Hank parece ter desistido de viver de verdade, se tornando apenas mais um no mundo que não sabe seu papel – se teria algum. O que os une e faz crescerem juntos nesta busca é o amor. No caso, o do suposto cadáver por Sarah (Mary Elizabeth Winstead), uma jovem que ele colocou como proteção de tela do seu celular (que não sabe a origem, diga-se) e pegava o ônibus todos os dias com ele. E é esta paixão ingênua e pura que parece aquecer a vida de Hank.

Tanto assim o é que, para ajudar o zumbi a relembrar sua vida, seu parceiro acaba recriando cenários como o próprio ônibus já citado e também acaba vestindo trajes e perucas que lembram a garota. A intensidade provocada pelo cadáver é tanta que o amor acaba refletido em Hank, quase gerando um beijo real dos dois. Não como homoerotismo pura e simplesmente, longe disso. Mas talvez uma forma de demonstrar a falta de amor que Hank levou em sua vida, seja pelo pai ditatorial ou pela perda da mãe quando pequeno, o que bloqueou sua forma de expressar sentimentos.

Para tanto, o trabalho da dupla principal é espetacular. Dano e Radcliffe surgem com uma química intensa em cena, além de já estarem imersos totalmente em seus personagens com uma qualidade totalmente crível. O “vivo” pela confusão gerada de seus sentimentos dispersos e personalidade entruncada, com olhares tristes de alguém que precisa urgente de ajuda para se livrar de uma depressão. O cadáver de Radcliffe, então, nem se fala. Com poucos movimentos, seja do corpo ou da própria face, o ator consegue entregar uma das grandes performances do ano passado com seus olhos arregalados e falas arrastadas, transmitindo toda a ingenuidade de um recém-nascido que quer conhecer tudo à sua volta e repassar tudo isto com mensagens extremamente positivas.

A escolha dos diretores e roteiristas para sua decupagem não poderia ser melhor. Entre planos abertos e fechados, fotografia multicolorida e cortes rápidos na montagem, eles entregam uma obra que tem muito a dizer e nem por isso se detém apenas aos diálogos. Eles entendem que a imagem entrega muito da filosofia colocada aqui. Nem flatulências, um pênis ereto que serve como bússola ou uma boca que funciona como lançador de objetos impedem que uma obra original e permeada por um humor que poderia facilmente cair no baixo calão não seja calcada numa visão formidável, divertida e emocionante sobre como ninguém é sozinho no mundo. É sempre preciso parceria para evoluir. Seja de uma paixão, de um verdadeiro amigo ou, simplesmente, de um cadáver que quer voltar à vida.

Nota da crítica

4.5/5

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Matheus Bonez é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.

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Ficha Técnica

um-cadaver-para-sobreviver-papo-de-cinema-cartazNOME ORIGINAL: Swiss Army Man

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2016

DURAÇÃO: 97 min

GÊNERO: Aventura, Crime, Drama

DIREÇÃO: Dan Kwan, Daniel Scheinert

ROTEIRO: Dan Kwan, Daniel Scheinert

FOTOGRAFIA: Larkin Seiple

MONTAGEM: Matthew Hannam

MÚSICA: Andy Hull, Robert McDowell

FIGURINO: Stephani Lewis

ESTÚDIO: Blackbird, Cold Iron Pictures, Tadmor

PRODUÇÃO: Miranda Bailey, Lawrence Inglee, Lauren Mann, Eyal Rimmon

ELENCO: Paul Dano, Daniel Radcliffe, Mary Elizabeth Winstead, Antonia Ribeiro, Timothy Eulich, Richard Gross, Marika Casteel, Andy Hull, Aaron Marshall, Shane Carruth, Jessica Herbeck

Sinopse

Hank, um homem perdido e sem esperanças, encontra um corpo de um homem morto. Decidido em ficar amigo do falecido, eles vão partir, juntos, em uma jornada surrealista para voltar para casa. Ao mesmo tempo em que Hank descobre que o corpo é a chave para sua sobrevivência, ele é forçado a convencer o morto o quanto vale a pena viver.

Curiosidades

- Festival de Sundance 2016: premiado como Melhor Filme em Drama;

- Independent Spirit Awards 2017: indicado a Melhor Primeiro Filme e Montagem;

- CPH PIX 2016: selecionado par a amostra competitiva;

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