O nosso papo é de cinema!


Trapaça

08/01/2014    

 

Crítica

O cineasta David O. Russell parece seguir um padrão em sua filmografia. Tanto os ganhadores do Oscar O Vencedor (2010) e O Lado Bom da Vida (2012) quanto o menos badalado Huckabees: A Vida é uma Comédia (2004) ou, ainda, o intenso Três Reis (1999) tem como pano de fundo diferentes situações, seja a temática do boxe e da bipolaridade dos dois primeiros quanto a família disfuncional ou a guerra. Porém, o eixo que une estas produções sempre são as pessoas e as interações que os personagens tem, suas relações. Portanto, seu novo longa, Trapaça, não poderia ser diferente, com o acréscimo de uma direção mais madura.

Com um dream team de indicados e vencedores do Oscar que poucos diretores conseguiriam unir, o longa é focado em Irving Rosenfeld (Christian Bale), um estelionatário profissional, e sua amante e sócia, Sydney Prosser (Amy Adams). Pegos em uma cilada pelo agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), ambos são forçados a participar de um plano que pretende capturar mafiosos e políticos corruptos, entre eles o candidato Carmine Polito (Jeremy Renner). A única pessoa que pode estragar os planos do trio é a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), que não aceita ser abandonada pelo marido.

O roteiro de Trapaça, talvez um dos mais inteligentes nos últimos anos dentro de seu gênero, não perde muito tempo com detalhes de como as transações funcionam. O que não quer dizer que o espectador possa ficar confuso sobre como o crime do colarinho branco ocorre, muito pelo contrário. A questão é que O. Russell foca a trajetória na mudança de atitude e, quiçás, até de personalidade de seus personagens. Principalmente no que se refere às mulheres. Sydney e Rosalyn, cada uma à sua maneira, são os fios condutores da narrativa. E o fato de suas intérpretes entrarem de cabeça nas personagens ajuda ainda mais.

Amy Adams, sempre a coadjuvante preferida de 90% dos filmes que estrela, brilha aqui com uma Sydney movida pelo amor traiçoeiro a Irving, uma mulher guiada pela impulsividade e pelos sentimentos, mas que articula de forma meticulosa cada passo para que seus golpes (em vários âmbitos) deem certo. Suas cenas são sempre intensas e o olhar ambíguo de Adams reflete quase que uma Capitu em versão disco americana.

Jennifer Lawrence, vencedora do Oscar no ano passado por O Lado Bom da Vida (2012), também de O. Russell, aparece menos em tela do que a colega. Por sinal, ambas só dividem uma cena com diálogos explosivos. Mas ela também, tão intensa quanto, porém de outra forma, acaba roubando a cena, especialmente quando ao lado do personagem de Christian Bale. Não à toa está, novamente, indicada a vários prêmios desta temporada.

Bale, com alguns quilos a mais, Copper, com cabelos encaracolados, e Renner, contido, fecham o quinteto de protagonistas desta trama, que tem uma direção casada de forma perfeita com o roteiro. Em uma cena, por exemplo, vemos em paralelo a reunião de Irving com Carmine e uma festa ao som de I Feel Love, de Diana Ross, onde Sydney e Richie parecem engatar um caso amoroso. A câmera está, assim digamos, bêbada e sob o efeito de drogas, bem como seus personagens, fazendo o espectador participar ativamente daquele ambiente.

Trapaça foi uma das últimas estreias de 2013 nos cinemas norte-americanos e tem arrancado elogios (e uma boa bilheteria) por onde passa. Méritos não faltam para o filme, mesmo que às vezes ele pareça um tanto quanto superestimado. Ainda assim, é, definitivamente, um dos melhores trabalhos de O. Russell, assim como de seu elenco. E só por este motivo já merece os aplausos que tem recebido.

Nota da crítica

4/5

avatar

Matheus Bonez é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.

Mande um mail para Matheus

Veja outros textos assinados por Matheus Bonez

Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: American Hustle

PAÍS DE ORIGEM: EUA

GÊNERO: Drama

DURAÇÃO: 138 min

ANO: 2013

DIREÇÃO: David O. Russell

ROTEIRO: Eric Singer, David O. Russell

EDIÇÃO: Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers

FOTOGRAFIA: Linus Sandgren

MÚSICA: Danny Elfman

DIREÇÃO DE ARTE: Jesse Rosenthal

FIGURINO: Michael Wilkinson

PRODUÇÃO: Richard Suckle, Charles Roven, Eric Singer, Jonathan Gordon, Megan Ellison, Bradley Cooper

ESTÚDIO: Atlas Entertainment, Annapurna Pictures

ELENCO: Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Wingham, Alessandro Nivola, Elisabeth Röhm, Paul Herman, Matthew Russell, Thomas Matthews, Adrian Martinez, Robert De Niro

Sinopse

Irving Rosenfeld (Christian Bale) é um grande trapaceiro, que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Os dois são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper), infiltrando o perigoso e sedutor mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do candidato Carmine Polito (Jeremy Renner). Os planos parecem dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), aparecer e mudar as regras do jogo.

Curiosidades

- Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz (Amy Adams), Melhor Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte e Melhor Roteiro Original;

- Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Atriz - Comédia ou Musical (Amy Adams) e Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), e indicado nas categorias de Melhor Filme - Comédia ou Musical, Melhor Ator - Comédia ou Musical (Christian Bale),  Melhor Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Melhor Roteiro e Melhor Direção;

- Premiado no Hollywood Film Festival nas categorias de Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte;

- Premiado pelo New York Film Critics Circle nas categorias de Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Melhor Roteiro e Melhor Filme;

- Vencedor do BAFTA nas categorias de Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence);

Um comentário para “Trapaça”

  1. Bianca Siqueiraem 08/03/2014 às 12:11

    Surpresa, no bom sentido, com a qualidade das caracterizações.
    Não reconheci o Batman?
    E que mulheres poderosas aquelas! Que cenas interessantes, inteligentes , mesmo quando o foco é a burrice da Jennifer Lawrence!
    Dá pra sentir calor da platéia quando as cenas são sobre a atração física e ao mesmo tempo nos enrolamos nas pequenas trapaças por onde estes mestres ;atores e cineasta, transitam.
    Que maravilha a atuação de Amy Adams! Que leveza esta DIREÇÃO!

  • Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

  • "A Bela e a Fera" (Disney)

    2ªSemana: 1,4 milhões de espectadores

    Público Total: 5 milhões de espectadores

  • "Power Rangers" (Paris)

    Estreia: 485 mil espectadores

    Público Total: 612 mil espectadores

  • "Logan" (Fox)

    4ªSemana: 354 mil espectadores

    Público Total: 5,9 milhões de espectadores

  • "Fragmentado" (Universal)

    Estreia: 323 mil espectadores

    Público Total: 412 mil espectadores

  • "Kong: A Ilha da Caveira" (Warner)

    3ªSemana: 174 mil espectadores

    Público Total: 1,7 milhão de espectadores

  • "A Bela e a Fera" (Disney)

    2ªSemana: US$ 88,3 milhões

    Bilheteria Total: US$ 316,9 milhões

  • "Power Rangers" (Paris)

    Estreia: US$ 40,5 milhões

    Bilheteria Total: US$ 40,5 milhões

  • "Kong: A Ilha da Caveira" (Warner)

    3ªSemana: US$ 14,4 milhões

    Bilheteria Total: US$ 133,5 milhões

  • "Vida" (Sony)

    4ªSemana: US$ 12,6 milhões

    Bilheteria Total: US$ 12,6 milhões

  • "Logan" (Fox)

    4ªSemana: US$ 10,1 milhões

    Bilheteria Total: US$ 201,4 milhões