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T2 Trainspotting

20/03/2017    

 

Crítica

É pela nostalgia que você está aqui, diz Simon/Sick Boy (Jonny Lee Miller) a Renton (Ewan McGregor) em determinado momento de T2 Trainspotting. O diálogo acaba por sintetizar as razões de ser dessa sequência de Trainspotting: Sem Limites (1996), obra icônica dos anos 1990 que catapultou as carreiras de McGregor e do diretor Danny Boyle. É verdade que o livro de Irvine Welsh que inspirou o filme original tem uma continuação, Porno (2002), que está parcialmente presente nesta narrativa aqui apresentada, mas a maneira como Boyle preenche essa última com referências e rimas visuais evocam muito fortemente certa melancolia em relação aos tempos do longa original, tanto para os personagens quanto para o próprio diretor – todos agora homens de meia idade, saudosos da energia da juventude – revelando mais uma vontade de reviver o passado do que de contar propriamente uma nova história.

E de fato a energia que movia o cinema de Boyle também em outros filmes, como Cova Rasa (1994), Por Uma Vida Menos Ordinária (1997), Extermínio (2002) e mesmo no malfadado A Praia (2000) parece ter se perdido na última década. T2 é uma revisita ao universo de Trainspotting filtrada pelo que o diretor tem feito desde Quem Quer Ser um Milionário? (2008), e, nesse sentido, carregada de um moralismo que não cabia no primeiro filme – que até discutia as consequências dos atos de seus personagens, mas nunca deixava de se divertir ao lado deles. Se Trainspotting ecoava a ironia ácida de Laranja Mecânica (1971), inclusive, por vezes, referenciando diretamente a obra-prima de Stanley Kubrick, T2 parece funcionar quase como o capítulo final do livro de Anthony Burgess, que, com seu gigantesco moralismo, nega toda a trajetória pregressa do personagem Alex, tendo sido, acertadamente, excluído por Kubrick na adaptação cinematográfica.

Essa analogia é quase exata porque talvez o filme de Boyle não chegue a tanto. Ao promover o reencontro entre Renton, agora morador de Amsterdam, em vias de perder o emprego medíocre que possui e em processo de divórcio; Sick Boy, que administra o pub outrora de sua tia enquanto chantageia homens respeitáveis com filmagens clandestinas de encontros armados com sua namorada Veronika (Anjela Nedialkova); Begbie (Robert Carlyle), evadido da prisão buscando retomar a vida de pequenos crimes e se vingar de Renton; e Spud (Ewen Bremner), que agoniza com sua incapacidade de largar o vício em heroína, T2 Trainspotting até abre espaço para a diversão liberta de qualquer amarra, sobretudo nos momentos em que Renton e Sick Boy redescobrem sua amizade com empolgação quase infantil – por isso, contagiante – e passam a planejar formas ilícitas de ganhar dinheiro. Vem daí a melhor cena do filme, aliás, em que os dois tentam assaltar as carteiras dos participantes da celebração da vitória protestante sobre os católicos na Batalha do Boyne (1690) e são forçados a uma situação constrangedora para se safarem.

O problema é que, não muito depois dessa cena, T2 mergulha no peso de um thriller que hipervilaniza Begbie, transformado em algo próximo de um algoz de filme de terror. Está certo que o personagem, de temperamento violento e dado a reações imprevisíveis, era alguém a ser temido desde Trainspotting e que seu ódio por Renton é diegeticamente justificável, mas Boyle e o roteirista John Hodge parecem passar um pouco do ponto aqui, topando um maniqueísmo que opõe Renton, Sick Boy e Spud, vistos como uma estranha família de losers heroicos, ao vilão cruel Begbie – quando o roteiro tenta humanizar esse último, com uma cena deslocada de busca de redenção com seu filho e esposa, é tarde demais, pois a narrativa se encontra à beira do clímax e o espectador já foi colocado completamente contra o sujeito.

Também incomodam em T2 Trainspotting a falta de clareza dos dois principais planos tramados por Renton, Sick Boy e Veronika, que parecem existir na narrativa somente para que alguém seja enganado no final e se estabeleça uma rima com a conclusão do filme anterior; e a falta de inventividade visual do cineasta. Uma das forças motrizes do primeiro Trainspotting, essa energia estética aqui basicamente se resume a alguns ângulos inclinados e luzes coloridas iluminando ambientes sombrios, fazendo de T2, nesse âmbito, uma espécie de versão menos acelerada do insuportável Em Transe (2013). É como se o diretor repetisse, na realização do filme, a primeira ação de Renton em cena: correndo vigorosamente numa esteira, o agora quarentão protagonista é repentinamente atingido pelo peso da idade e sofre um tombo monumental. O cinema de Boyle envelheceu e o universo de Trainspotting parece não caber mais nele. Ainda assim, não deixa de ser prazeroso reencontrar personagens tão queridos ao som de “Lust for life”, de Iggy Pop, e “Born Slippy”, do Underworld. No fim das contas, portanto, é só mesmo na base da nostalgia que T2 consegue funcionar de alguma forma.

Nota da crítica

3/5

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Wallace Andrioli é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: T2 Trainspotting

PAÍS DE ORIGEM: Inglaterra

ANO: 2017

DURAÇÃO:

GÊNERO: Drama

DIREÇÃO: Danny Boyle

ROTEIRO: John Hodge, Irvine Welsh

FOTOGRAFIA: Anthony Dod Mantle

MONTAGEM: Jon Harris

FIGURINO: Rachael Fleming, Steven Noble

ESTÚDIO: DNA Films, Decibel Films, Cloud Eight Films

PRODUÇÃO: Bernard Bellew, Danny Boyle, Christian Colson

ELENCO: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Kelly MacDonald, Logan Gillies, Ben Skelton, Aiden Haggarty, Daniel Smith, Elijah Wolf, Steven Robertson, John Kazek, Shirley Henderson, Charlie Hardie, Scott Aitken, Gordo Kennedy, Tereza Duskova, Simon Weir, James Cosmo, Katie Leung

Sinopse

Renton retorna à cidade natal depois de vinte anos de ausência. Hoje, ele é um homem novo, com um emprego fixo e livre das drogas. Os amigos não tiveram a mesma sorte: Sick Boy comanda um comércio fracassado, Spud continua dependente de heroína e Begbie está na prisão. Aos poucos, Renton revela que sua realidade não é tão positiva quanto ele mostrava, e volta a praticar os crimes de antigamente.

Curiosidades

- Sequência de Trainspotting (1996);

- Festival de Berlim 2017: selecionado para apresentação especial;

- Esta é a primeira vez, de 1996, que Ewan McGregor e Danny Boyle voltam a trabalhar juntos, pois se desentenderam em meados de 1997 quando Boyle preferiu Leonardo DiCaprio a McGregor como protagonista de A Praia (2000);

- Jonny Lee Miller ofereceu raspar seu cabelo para parecer mais velho, mas Danny Boyle insistiu que o seu personagem, Sick Boy, deveria manter o icônico cabelo loiro;

- Orçamento: US$ 18 milhões;

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