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Sinopse

Durante a sua missão de 5 anos de exploração, a Enterprise é atacada levando sua tripulação a um planeta desconhecido, onde habita um líder hostil com humanos. Sem meios de comunicação, Kirk e os demais membros da sua equipe devem encontrar um meio de sair dali e retornar à Terra antes que o tal Krall faça isso.

Crítica

É uma tremenda infelicidade o desprezo com que o público atual vem encarando as releituras de Star Trek comandada pelo mesmo J. J. Abrams que somou mais de US$ 2 bilhões nas bilheterias de todo o mundo com Star Wars: O Despertar da Força (2015). Se no comando da saga idealizada por George Lucas o cineasta alcançou a terceira maior bilheteria de todos os tempos, com os três filmes inspirados nos personagens criados por Gene Roddenberry tal valor não se equipara nem se somados os desempenhos de toda a trilogia (que está em torno dos US$ 1,15 bilhão). E ainda que o desempenho junto ao público tenha sido decrescente, a avaliação da crítica é inversamente proporcional: Star Trek: Sem Fronteiras pode nem ter se pago (custou US$ 185 milhões e arrecadou pouco mais de US$ 155 milhões nos EUA), mas consegue o feito de ser ainda melhor do que os longas anteriores dessa nova etapa da série.

Após ter dirigido Star Trek (2009) e Além da Escuridão: Star Trek (2013), J. J. Abrams abriu espaço para Justin Lin (Velozes e Furiosos 6, 2013) assumir o controle, cuidando apenas da produção. Em termos práticos, o que tal mudança significou? Uns poderiam imaginar que teria sido deixado de lado as implicações psicológicas dos habitantes da nave espacial Enterprise em nome de mais ação desenfreada e inconsequente. Ledo engano. Afinal, se o capítulo anterior terminou com a missão dada ao Capitão Kirk (Chris Pine, cada vez mais à vontade) de partir para uma jornada por cinco anos no espaço junto de sua tripulação, agora os encontramos já cansados de todo esse tempo longe de casa, questionando-se sobre a serventia de suas funções e qual o sentido de cada ação. Principalmente Kirk, que está prestes a fazer aniversário e se tornar um ano mais velho do que seu pai (Chris Hemsworth, que fez rápida participação em Star Trek) quando morreu. As fronteiras, como se percebe logo de início, por aqui são tanto físicas quanto emocionais.

Ao aterrissarem em uma estação intermediária, Lin aproveita também para discorrer sobre os demais integrantes do grupo. Assim percebemos o saudoso Anton Yelchin (que faleceu em um estúpido acidente de carro após o término das filmagens) levando uma vida amorosa inconsequente com o seu Chekov, ao mesmo tempo em que a diversidade sexual se faz presente através de John Cho (Sulu está ansioso para encontrar o marido e a filha adotiva do casal). O relacionamento de Uhura (Zoe Saldana) e Spock (Zachary Quinto) já viveu melhores fases, ao mesmo tempo em que Bones (Karl Urban) parece mais preocupado com o bem estar dos outros do que com o próprio (apesar de viver falando ao contrário). Scotty (Simon Pegg, também co-autor do roteiro), por sua vez, passa tanto tempo ocupado com tarefas práticas que pouco tem a discorrer sobre questões mais filosóficas. A vida de todos parece destinada a ser um marasmo monótono e repetitivo. Isso, é claro, até o próximo chamado.

Sim, pois, ao atender a um pedido de socorro, Kirk e sua equipe caem em uma armadilha que resulta na destruição quase total da Enterprise – artifício que já havia sido empregado em Jornada nas Estrelas: À Procura de Spock (1984) e em Jornada nas Estrelas: Generations (1994) e que aqui é retomado com força. Perdidos em um planeta desconhecido e divididos em duplas aleatórias formadas pelo local de pouso de cada um, eles precisarão não apenas a superar suas diferenças (como Bones e Spock) como também unir forças (como Scotty e a novata Jaylah, interpretada por Sofia Boutella) para permanecerem vivos. Esse, aliás, é o objetivo número um de Uhura e Sulu, que terminam presos pelo vilão Krall (Idris Elba, quase irreconhecível). Este, talvez por ter se submetido a quilos de maquiagem, pode não ter uma presença tão forte quanto a de Khan (Benedict Cumberbatch) em Além da Escuridão: Star Trek, mas suas motivações, reveladas ao final da trama, o elevam ao posto de uma das figuras mais trágicas de toda a saga.

Essa proposta mais naturalista – há pouco do escuro do universo sem fim e muito verde e terra deste planeta bastante similar ao nosso próprio – termina por funcionar, mas não apenas pela fuga da obviedade, mas também porque uma variação de tema, quando bem utilizada, sempre cai bem. Eletrizante desde o início, profundo de uma forma quase insuspeita e consciente em abusar de altas doses de adrenalina nos momentos apropriados, Star Trek: Sem Fronteiras é um filme que não só está à altura das expectativas dos fãs mais exigentes, como também é uma bela porta de entrada para os curiosos sobre essa realidade tão rica em detalhes e vasta em emoções. E ainda por cima, é respeitoso com o elenco original, bem de acordo com o que se poderia esperar de uma produção que tem também como meta celebrar os 50 anos da franquia. E se chegamos até aqui em tão bela forma, o único pedido a ser feito agora é... vida longa e próspera!

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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