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Sinopse

Em uma terra sem lei, a sorte favorece os mais fortes e corajosos. Ara, um homem de ação e poucas palavras, é o líder de um bando de motoqueiros armados que acredita em uma antiga lenda capaz de devolver justiça e liberdade ao povo da região. Quando realizam um ousado roubo, despertam a fúria do poderoso Tenório. Esse vai concentrar suas forças em uma perseguição para destruir o bando de Ara e recuperar aquilo que acredita ser seu por direito.

Crítica

A caatinga brasileira tem pouca água, mas muito sangue, suor e lágrimas. Na escassez do elemento aquoso, os personagens de Reza a Lenda não têm outra opção a não ser resvalar barbaramente na viscosidade destes fluídos corporais básicos. Com a falta d’água, cresce uma sede ancestral e solidifica-se uma fé quase inabalável que coloca em choque três grupos sociais cujas relações conflituosas extrapolam a dimensão espiritual, remetendo o público às micropolíticas clânicas e oligárquicas que dominam a região. Com enredo brasileiríssimo, produção caprichada, narrativa ágil, boas atuações e muita ação, o filme de Homero Olivetto lembra a todos que a necessidade fisiológica pode reforçar o pensamento mágico que tende sempre a colidir com aspirações ideológicas.

O longa apresenta um agrupamento de adultos órfãos criados pelo líder messiânico Pai Nosso (Nanego Lira), figura paterna que suprime a falta dos genitores assassinados décadas antes pelo coronelismo. A horda de motoqueiros armados e determinados integrada por Ara (Cauã Reymond), Severina (Sophie Charlotte) e Pica-Pau (Jesuíta Barbosa) assemelha-se aos cangaceiros de ontem e de hoje, muito embora seu alvo principal não seja as riquezas alheias, mas sim a dita Santa de Ouro, estátua roubada pelo coronel Tenório (Humberto Martins) que a expõe a fiéis mediante pagamento. Pedaço de gesso que ganha valor e sentido pelo amor do devoto, o pequeno ícone seria milagroso para o grupo de Ara visto seu suposto dom de fazer chover no sertão. No entanto, se a santa não sacia a sede do povo há muito tempo, vem gerando lucro involuntário ao coronel que abusa do crente pagador de promessas.

O resgate da estátua por Ara, uma jornada virulenta e letal, se mostra uma verdadeira descida ao inferno, narrativa mítica recorrente na qual o herói, com auxílio do oráculo, vai ao Mundo Inferior em busca do que é realmente seu (sua alma, essência ou amante, por exemplo). No filme, a busca da santa é sugerida pelo falso profeta Galego Lorde (Júlio Andrade), um nômade acumulador de bens que se coloca como liderança messiânica local, e cujas previsões são mais obscuras do que esclarecedoras. Por ordem de Galego, mas principalmente motivado pela própria crença cega de que a chuva depende da volta da santa ao seu local de origem, Ara e seu bando entram em guerra com o coronel e com o profeta em embates sanguinários dos quais poucos restarão.

Reza a Lenda é corajoso ao debater assuntos absolutamente atuais, tendo sido inspirado pelo imaginário brasileiro e ilustrado por uma forma fílmica pouco usual no país. Road movie árido e energético de carga antropológica, a obra de Olivetto tem discurso econômico e certeiro, ação crua e romance duro, mas acima de tudo se enraíza a partir de uma montagem dual que mistura sequências aceleradas da violência comum ao Brasil profundo a cenas contemplativas reveladoras de céus estrelados, paisagens desérticas, condutas ritualísticas e corpos em degradação.

Distante da concepção histórica que tende a observar a evolução como uma linha do tempo em sentido único, o longa resgata um tempo mítico, cíclico, mais ligado ao mundo natural e cósmico, para lembrar que as mazelas nordestinas são tão recorrentes quanto previsíveis. É por esta antiga recorrência que a necessidade de água reforça uma fé verdadeira, jogando para o mito da santa a solução para a seca eterna. Por isso também que falsos profetas se aproveitam do crente ingênuo, tirando dele o que quiserem em benefício próprio. E é também por isso que uma estátua de gesso com valor mágico para pobres, e monetário para ricos, vem a ser roubada tornando-se pivô de conflitos epifânicos, lampiânicos, glauberianos.

Sim, Reza a Lenda cita Glauber Rocha constantemente, especialmente Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Estão no longa claras referências à montagem descontínua, ao trinômio coronelismo-messianismo-cangaço, à denúncia da crença mítica exacerbada e da violência física transformadora, além do flagelo provocado pela sede e pela impossibilidade da vida no sertão. Há ainda a capela como lócus de transcendência, a política comprometida pela religião, a guerra de facões, a trilha sonora intervencionista, o cinema como ferramenta revolucionária. Por tabela, Olivetto olha ainda mais para trás ao espelhar Os Sertões, Vidas Secas, Morte e Vida Severina (2011), mas também dialoga com os contemporâneos Romain-Gavras (ao mirar o clipe Bad Girls, da cantora M.I.A., para conceber o bando motorizado de Ara) e Ray Tintori (diretor do Time to Pretend, do MGMT, ao elaborar o visual do clã de Galego). Entretanto, assim como Glauber, Reza a Lenda não nega totalmente o tempo histórico em função do mito. Pelo contrário. Em um desfecho revolucionário, faz Ara romper com sua própria crença, antes inquestionável, como forma de libertação sociopolítica. Livre da fé cega, ele poderá enfim ver a chuva.

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é jornalista, doutorando em Comunicação e Informação. Pesquisador de cinema, semiótica da cultura e imaginário antropológico, atuou no Grupo RBS, no Portal Terra e na Editora Abril. É integrante da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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