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Primavera

19/03/2017    

 

Crítica

Mistura da trilogia Jesse-Celine, de Richard Linklater, – Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013) – com um punhado de contos de horror cósmico de H.P. Lovecraft, Primavera, segundo longa-metragem da dupla Justin Benson e Aaron Moorhead, combina o charme de um romance indie a imagens grotescas e a uma mitologia promissora, ainda que um tanto rasa. Após a morte de sua mãe, o jovem norte-americano Evan (Lou Taylor Pucci) resolve viajar à Europa para uma mudança de ares. Ao visitar uma cidadezinha italiana, ele conhece Louise (Nadia Hilker), bela e misteriosa mulher com quem inicia um relacionamento. A garota, entretanto, tem segredos que estão, literalmente, além da compreensão do rapaz.

Esse casamento de diferentes gêneros é um dos aspectos mais chamativos do filme, mas, infelizmente, o roteiro nem sempre consegue unir elementos de cada um deles sem deixar aparentes as "costuras" da narrativa. O primeiro ato dedica muito tempo à construção do personagem de Evan, o que é ótimo, mas a demora à introdução do componente sobrenatural transforma numa reviravolta algo que, na verdade, é parte da premissa. O resultado é um bom estudo de personagem e uma exploração envolvente do relacionamento de um casal; a parte mais fantasiosa, porém, acaba não conseguindo encontrar muito espaço no enredo.

Há, entretanto, grande potencial no flerte desta obra com o realismo mágico – embora Louise insista que o que chamamos de sobrenatural é apenas biologia que ainda não conseguimos compreender. A fluidez dos diálogos e a química entre os dois atores principais conseguem representar muito bem a crescente intimidade entre os personagens, ao ponto de conferir certa naturalidade a conversas que normalmente soariam dolorosamente expositivas (particularmente os monólogos de Louise sobre a natureza de sua condição e o absurdo conjunto de regras que a acompanha).

É difícil não questionar, também, a escolha de manter o foco em Evan e na maneira como ele reage a toda a situação, considerando que Louise é, evidentemente, uma figura com muito mais material a ser explorado: ela é, afinal, uma criatura imortal, com 2000 anos de idade. Apesar de brincar com temas filosóficos, familiares aos fãs de histórias modernas de vampiros, como a subversão da ideia da imortalidade tornada maldição (Louise demonstra estar extremamente confortável com a eternidade), o desfecho prova que Primavera permanece mais fiel ao romance que ao horror ou à ficção científica.

Benson e Moorhead ganham pontos, no entanto, por conduzir uma obra na qual a originalidade e as boas performances compensam o baixo orçamento. Talvez este filme fosse mais eficiente se tivesse um período de gestação mais longo, necessário para amadurecer as ótimas e ambiciosas ideias de seus realizadores; de qualquer maneira, Primavera ainda funciona, e muito bem, como uma narrativa envolvente e corajosa, centrada em dois personagens bastante carismáticos.

Nota da crítica

3/5

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Marina Paulista cursa Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo e é editora do blog Cine Brasil.

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Ficha Técnica

NOME ORIGINAL: Spring

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2014

DURAÇÃO: 109 min

GÊNERO: Horror

DIREÇÃO: Justin Benson, Aaron Moorhead

ROTEIRO: Justin Benson

FOTOGRAFIA: Aaron Moorhead

MONTAGEM: Justin Benson, Michael Felker, Aaron Moorhead, Giulio Tiberti

MÚSICA: Jimmy Lavalle

ESTÚDIO: XYZ Films

PRODUÇÃO: Justin Benson, Aaron Moorhead

ELENCO: Lou Taylor Pucci, Nadia Hilker, Francesco Carnelutti, Nick Nevern, Chris Palko, Jonathan Silvestri, Jeremy Gardner, Vinny Curran, Holly Hawkins, Augie Duke, Vanessa Bednar, Kenso Lee, Shane Brady

Sinopse

Depois de perder a mãe para uma trágica doença, Evan percebe que sua vida está sem direção, e resolve pegar todo o seu dinheiro e se aventurar pela Europa sem destino certo. Quando chega à Itália, conhece a jovem Louise, por quem se apaixona. Os dois iniciam um romance, mas ela tem um segredo que pode destruir a história do casal.

Curiosidades

- Festival de Toronto 2014: selecionado para a apresentação especial;

- Fantaspoa 2015: premiado como Melhor Direção;

- Festival de Palm Springs 2015: premiado como Melhor Direção;

- iHorror Awards 2016: indicado a Melhor Direção e Filme Indie;

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